Adamastor, o gigante da Zona Leste | Gazeta do Balão
Adamastor, o gigante da Zona Leste
Publicado em 10/01/2019 | 73113 Visualizações

Lá no começo dos anos 1980, soltar balões não era crime como nos dias de hoje. Até 1998 quando a atual lei entrou em vigor, soltar balões era como o Jogo do Bicho e a prostituição, uma contravenção penal que dizia em seu 28º artigo:

“Soltar balão aceso sem licença da autoridade em lugar habitado ou em suas adjacências, ou também em via pública ou em direção a ela. Pena: Prisão simples de 15 dias a dois meses ou multa”.

Mesmo sendo proibida, não era muito comum a soltura de balões serem repreendidas por algum agente policial. Na verdade, comum mesmo era ver viaturas acompanhando as solturas e festivais apenas para manter a ordem, evitar bagunça e estacionamentos irregulares.

Com isso, a prática aumentou e se espalhou por toda a Grande São Paulo rapidamente e o principal point de soltura de balões no começo da década, um enorme campo na Av. Ricardo Jafet, na região do Ipiranga, divisa das zonas sul, leste e do ABC, atraia, a cada fim de semana, milhares de pessoas para acompanhar as solturas dos gigantes com armações das turmas mais badaladas na época como Amizade, Dez de Ouros e Lua, as primeiras de São Paulo.

Tudo começou num festival organizado pela Amizade em 1980 e nele, nasceram muitas turmas. Entre elas, a Zeppelin (Tatuapé) que é a única delas que nunca parou e completará 40 anos no ano que vem.

Como as solturas de balões na Ricardo Jafet atraia muita gente, obviamente chamou a atenção dos veículos de imprensa e era comum encontrarmos repórteres por lá entrevistando pessoas e fotografando ou filmando os balões.

Enquanto isso, lá no Rio de Janeiro, o assunto do momento era o tal “King of The Kings”, o pião de 54 metros do Gabriel e Harmonia que toda semana era matéria de jornais cariocas e todo mundo falava dele.

Devido a imensa repercussão do balão no Rio de Janeiro, os editores da Folha de São Paulo na época exigiam que seus repórteres arrumassem matérias sobre balões em São Paulo.

Num bate papo de redação entre o repórter Fernando Pessoa Ferreira e o premiadíssimo fotógrafo Jorge Araújo sobre o assunto, Jorge disse que tinha um amigo, também fotógrafo, que era baloeiro e foi assim que a Folha de São Paulo chegou ao nosso querido Luizinho da Zeppelin.

No dia da entrevista, pressionado por uma boa matéria, Fernando Pessoa foi até a bancada da Zeppelin, fez a entrevista, deu em cima da namorada do Luizinho e, quando o jornal saiu, ele batizou o balão, que não tinha nome algum de Adamastor com a intenção de aumentar o foco sobre o balão e tentar se equiparar a estrela dos jornais cariocas “King of The Kings”, até porquê, nunca teve essa coisa de dar nomes aos balões pelos baloeiros, mas foi a saída sensacionalista que ele achou pra vender o jornal:

Adamastor é um mítico gigante baseado na mitologia greco-romana, referido por Luís de Camões em Os Lusíadas, também referido por Fernando Pessoa (Não o repórter) no poema O Mostrengo, chamando-lhe Mostrengo.

Obviamente por ter seu nome inspirado no Poeta Fernando Pessoa, é bem fácil de entender o porquê que o repórter Fernando Pessoa “inventou” esse nome para o balão.

Pra gente que está acostumado com balões, um 11×11 não é um balão gigante, mas na época, onde a maioria dos baloeiros só soltavam 4×4 e 5×5, um balão de 22 metros com certeza era gigante e, acredito que foi baseado nisso, que o repórter criou essa imagem de balão gigante, até porquê, como já falamos, ele sofria pressão por uma boa matéria devido ao verdadeiro gigante carioca.

E realmente o “Adamastor” virou uma celebridade. Durante todo o mês de julho de 1984 saia matérias ou notas sobre o a preparação e lançamento do balão.

Uma semana antes da soltura do balão, o Luizinho e o Toninho (Gaivota) foram montar a armação que tinha 46×56.  “Foi um dia difícil’, conta Luizinho em entrevista para a GB. “Começamos a montar a armação as 08:00 e terminamos de montá-la as 20:00. Enquanto montávamos a armação, um rapaz passou de bicicleta, parou, ficou olhando e nos perguntou o que estávamos fazendo. Eu disse que estávamos preparando um balão para soltar na semana seguinte, ele desceu da bicicleta e nos ajudou. Seu nome era Arnaldo, acabou virando nosso amigo e, de certa forma, entrou para a turma. “, conta Luizinho.

Mesmo com toda a repercussão causada pelas matérias na Folha de São Paulo, Luizinho diz que não teve nada de positivo com isso tudo. Devido ao repórter dar certa ênfase na matéria sobre a ajuda que Talma, sua namorada na época, dava na criação e preparação dos balões, gerou muito ciúmes e brigas internas que fizeram com que ela terminasse o namoro.

Além disso tudo, no dia programado, 29 de Julho, o tempo ficou ruim e o balão não subiu.

E assim foi até 17 de novembro, quando enfim, o tempo abriu e todos foram para o campo, um imenso terreno na Radial Leste onde hoje é o Piscinão da Penha.

Já os repórteres? Nada! Não apareceu nenhum. Na verdade, eles queriam algo para falar devido ao gigante carioca e como não subiu na época programada, acabou sendo “esquecido” pela imprensa. Mas pelos baloeiros não! O balão atraiu milhares de pessoas que literalmente travaram a Radial. Quando tudo estava pronto para encher o balão, chegaram 2 caminhões do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Logo, o Tenente se aproximou e procurou os responsáveis pelo balão.

“Quando o Tenente veio falar comigo, pediu para que não soltasse o balão, pois aquele evento estava prejudicando todo o trânsito na região e lhe disse que, se me desse garantia de que pudesse desmontar tudo com segurança, assim faríamos, porém demoraria horas para fazer isso. Preocupado com os transtornos que a muvuca estava causando, ele me perguntou o que era mais rápido: desmontar ou soltar? Eu disse que soltar era mais rápido e ele nos autorizou a soltar o balão”, conta Luizinho.

E assim foi. Maçarico no balão, milhares de lanternas acessas, balão nas guias e veio o maldito vento, queimando o balão.

“Logo após todo o desastre, o Tenente me procurou, disse que todos (os Policiais) torciam para dar certo e que lamentava muito”, conta Luizinho.

O tempo passou, a Zeppelin soltou outros balões, e, em 1987, depois de um acidente onde quebrou o braço, afastado do trabalho e já se recuperando, Luizinho aproveitou o tempo disponível e decidiu pegar umas folhas que tinha na bancada e fazer outro balão, outro 11×11 e aproveitar o projeto da armação do Adamastor, guardada na gaveta desde aquela fatídica noite 3 anos atrás.

Em 40 dias, trabalhando o dia todo, fez o balão e o soltou, desta vez com sucesso do famoso campo da Sonho de Papel em Guarulhos na noite de 20 de julho de 1987:

O balão subiu tranquilamente, veio até o centro de São Paulo e caiu, depois de 2 horas de voo sob casas na Cidade Patriarca, bairro da Zona Leste de São Paulo. Foi resgatado inteiro, porém foi apreendido pela Rota enquanto os baloeiros o dobravam e não se tem notícias sobre o que aconteceu depois.

É isso ai! Essa é a história do famoso Adamastor.

Abraços a todos

Dinho GB

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