Armações e Painéis, o estopim dos balões modernos | Gazeta do Balão
Armações e Painéis, o estopim dos balões modernos
Publicado em 18/03/2012 | 899852 Visualizações

Olá amigos! Pelo pouco que conhecemos da história, até a década de 60 os balões eram 100% Marias-Preta, os conhecidos balões de festas juninas. No final da década de 60, os balões começaram a ganhar proporções e com a invenção das lanterninhas, um novo estilo de balão ganhou os céus do Rio de Janeiro: As armações.

Tudo começou por volta de 1966. Naquela época, os balões eram inflados através de uma lata com restos de vela, tecidos, madeira e papel. Prendiam uma vara de bambu no bico para levantá-lo e com o fogo dessa lata, o balão enchia. Depois de cheio, a bucha, embebida em querosene ou gasolina era acessa e dava aquele estouro. O uso de maçarico nos balões só apareceu no final da década de 70 através de Nelson Grande.

Durante a soltura de um balão ao lado de uma obra, tiveram a ideia de usar os andaimes para poder segurar o bico do balão sem a vara. Atitude inteligente, similar aos loucos que subiam em árvores, muros e casas para ajudar, mas obviamente, não dava pra ficar procurando andaimes para soltar os balões.

Nesta mesma idéia, as primeiras armações eram feitas. Totalmente na vertical, seja em muros ou andaimes montavam a rede com linha 10 presas na antena feita de bambu. Faziam uma estrutura complexa, como uma teia de aranha com linhas pra todo lado. Depois prendiam as lanternas no traçado dos desenhos através de varetas de bambú presas com durex e fita crepe.

Só no final da década de 60, que os baloeiros cariocas começaram a fazer as armações e letreiros no chão. Usavam os mesmos materiais porém as técnicas mudaram. Em vez de fazerem a famosa teia de aranha, montavam as redes quadriculadas com uma linha mais forte conhecida como Rococó 1, ou linha 4 como os pipeiros conhecem.

Com isso, os balões foram se tornando populares. Não existia turmas de baloeiros. Naquela época, as solturas eram divulgadas pelas ruas onde os balões eram soltos. Uma das primeiras, era a Torres de Oliveira em Piedade, onde simpatizantes do balão iam ver os balões do Sr. Marino e de Moacir Quaresma, de acordo com muitos baloeiros de época, os primeiros a soltar balões de armação no Rio de Janeiro. Eram na maioria das vezes 4×4 e 5×5. A cada fim de  semana centenas de pessoas se reuniam pra ver os balões da Torres de Oliveira e na Lemos de Brito em Quintino do Barroca e Alvaro.

Conforme os anos foram passando, os balões foram ficando mais populares e os grupos de amigos, pequenas confrarias que se reuniam para fazer e soltar os balões de armação, ficaram conhecidos por turmas. Nascia ali as primeiras turmas do Rio de Janeiro como Tom e Jerry, onde seu líder o saudoso Madeira, a batizou com esse nome por gostar do desenho da TV. Outras turmas, na maioria das vezes, eram batizadas pelo nome de seus bairros ou ruas como a Ouro Preto (Rua Ouro Preto), Del Castilho, Méier, Casarão do Méier, Casarão de Bangú, Águia de Ramos e Cachambi.

Juntamente com o Sr. Marino, Moacir Quaresma, Barroca e Álvaro, baloeiros como Tião Maia, Nelson Costa, Nelson Dentista e Tharsis de Oliveira se destacavam com seus balões por toda a cidade Maravilhosa. Em meados da década de 70, os balões de armação predominavam nos céus cariocas. A cada ano novas turmas e baloeiros apareciam como União, Rede, Colosso, Amizade, Cometa, Arte Real, Playboy, Zodíaco, Dragão e Branca de Neve.

Com a invenção da Boca de Ouro em 1977, o balão evoluiu em tamanho e beleza. Se até então o “legal” era apenas soltar um balão, com a Boca de Ouro, na época chamada de Destaque de Ouro, fez com que os baloeiros buscassem novas ideias e os balões ganharam qualidade.

O troféu Destaque de ouro seria dado não apenas para um balão. Poderia ser um baloeiro, uma turma, enfim, seria dado para quem se destacasse no cenário. Mesmo assim, a vontade de ganhar um troféu fez como que a galera trabalhasse muito para ganhá-lo. A primeira turma a ganhar foi o Méier de Luiz e Jorge Turco, o pai do balão taqueado. Seu balão, um 7×7 taqueado com uma armação retratando o Pagode (casas japonesas), chamou a atenção por ser um dos primeiros balões totalmente coloridos.

Com essa nova “batalha” em busca do balão mais bonito, começaram a aparecer os primeiros projetistas como Edson de Guadalupe (Realengo) e Ivo Patrocínio (Cachambi). O curioso que nesta época, nasceu um padrão para estes balões, o 9×9. Afinal bastava unir as folhas de Floor Post, cortar no meio e dava 2 gomos de um 9×9.

Com esse padrão, os projetistas criavam as decorações seguindo o mesmo leque e quantidade de gomos. As turmas seguiam pelo tamanho de boca, peso, quantidade de bucha e lanternas. Com esse padrão que era passado de turma a turma, a cada ano, dezenas de 9×9 com armação foram soltos. Todos praticamente iguais em proporções e carga. Haja vista que poucos acidentes ocorriam com estes balões. A única diferença era o talento dos projetistas. E, praticamente todos os balões de armação do Rio de Janeiro, eram soltos do campo do Boi em Cascadura, o principal campo de soltura de armações nas décadas de 70 e 80. Quem quisesse ver um balão, bastava ir nesse campo num sabado de tempo bom que os baloeiros estava lá preparando suas obras de arte para serem soltas a noite.

O intercâmbio de baloeiros paulistas com os cariocas no final da década de 70, foi o ponta pé inicial para a chegada das primeiras turmas em São Paulo.

Por volta de 1978, após voltar de uma viagem ao Rio, o baloeiro e comerciante Nenê que morava em Santo Amaro e possuía uma loja no Brooklin, bairro próximo ao Itaim Bibi, na zona sul de São Paulo, comentou com amigos os balões que viu nos céus carioca e eles decidiram voltar ao Rio para aprender as técnicas e trazer para São Paulo estes balões de armação soltos no Rio de Janeiro. Após algumas viagens, conheceram um baloeiro que lhes indicou o Point dos baloeiros na época, o lendário balógrafo Titio Mello, que vendia fotos de balões em sua loja num Shopping do Méier, conhecido bairro carioca. Lá eles conheceram o Zeca da Turma da Amizade, um dos maiores baloeiros da história. Sua turma, a Amizade era muito conhecida por todos os baloeiros pelos belos trabalhos e festivais que reuniam milhares de pessoas e baloeiros.
No mesmo ano, um dos amigos de Nenê que foram ao Rio para fazer intercâmbio, o fabricante de jóias Paulinho, decidiu retornar com sua esposa Sônia para a cidade Maravilhosa e lá criou uma grande amizade com o Zeca.
Paulinho e Soninha como são carinhosamente chamados até hoje, voltaram do Rio decididos a criar uma turma e soltar aqui, as armações e balões que conheceram no Rio de Janeiro. Em homenagem ao grande amigo Zeca, fundaram em 1978, a Turma da Amizade, a primeira turma de baloeiros de São Paulo.

A cada balão da turma da Amizade, novas pessoas chegavam, pediam para aprender e com isso, novas turmas de todas as regiões da cidade nasciam principalmente em bairros e cidades próximas ao Ipiranga onde a Turma da Amizade se estabelecia e soltava seus balões.


Devido a este crescimento, Paulinho decidiu criar um Festival para que as novas turmas pudessem participar e serem conhecidas.

Com a realização do 1º Festival de balões de São Paulo  em agosto de 1980, diversas turmas se reuniram e muitos apaixonados por balões puderam conhecer novas técnicas e entre elas, o balão de armação.

Realizado em um grande terreno na Avenida Ricardo Jafet no Ipiranga, o primeiro Festival de Balões de São Paulo apresentou novas turmas. Além da própria Amizade, o mundo do balão conheceu turmas como Zeppelin (Tatuapé), Lua (São Bernardo do Campo), Dez de Ouros (Aclimação), Arranca Rabo (São Bernardo do Campo), Bola (Ipiranga), Remendo (Ipiranga), Siri (Aclimação), Churrasco (Belém), Águia (Ipiranga) e União (Aclimação).

Nos anos seguintes, o balão foi se desenvolvendo e novas turmas nasciam como Estrela do Ar, Clube Paulistano de Balões, Saudade, Dragões do Ar, Emenda, Penha, Patinhas, Pequeno Mundo e por ai vai.

Com o tempo os balões de armação foram se popularizando e suas técnicas aperfeiçoadas a cada balão. Uma das técnicas mais utilizadas nos dias de hoje, o ponto cruz, nasceu na década de 80 baseados nos balões taqueados, afinal o projeto é praticamente o mesmo. Hoje, os balões levam armações cada vez mais perfeitas, com malhas feitas com redes e travadas com varetas de bambu. Uma das técnicas mais revolucionárias dos últimos tempos foi criada nos anos 2000 por Fabricio da turma Capela, Sitio e Cascata, ou CSC como é conhecida. Sua técnica persiste em mesclar diversos tamanhos de lanternas a fim de dar novos efeitos de luz. O primeiro balão a utilizar essa técnica foi seu Lapidado de 16m solto em 2004 que retratava Lamartine Babo, um dos mais famosos compositores de músicas juninas brasileiras.

Nos últimos anos, devido a repressão e enorme logística para soltar balões de armação, o mais clássico estilo de balões é considerado raro nos dias de hoje. Se nos anos 90 víamos 40, 50 armações soltas em cada estado num único ano, hoje poucas turmas soltam esses balões e somente uma, no mundo do balão, a Estrela do Ar de São Paulo, se dedica a este estilo soltando 2 balões com armação por ano.

É isso ai galera. O mundo mudou mas a paixão pelas lanterninhas nunca vai acabar. Muitos de nós crescemos vendo balões de armação e sempre trazíamos meia dúzia de lanternas pra casa como um souvenir, uma lembrança daquela noite especial.

Agora é com vocês! Contem suas histórias e relembrem o mais belo e clássico estilo de balão, o balão de armação.

Abraços

Dinho

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