Edição 22 - Estrela Dalva | Gazeta do Balão
Edição 22 – Estrela Dalva
Publicado em 10/01/2019 | 434382 Visualizações

Publicada na edição 22 de Julho de 1992

Existem na Grande São Paulo grupos tradicionais e antigos no universo baloeiro que nos motivaram neste ano de 1992 a fazer um giro de entrevistas nessas cidades. Iniciamos em abril com a Zeppelin de Suzano, em maio fomos a Guarulhos e conhecemos a história da região e da Chugabum, no mês de Junho sempre é reservado para reportagens especiais e prosseguimos nosso trabalho em julho, quando fomos para Osasco conhecer a história da região e da “Estrela Dalva Baloeiros”, um dos mais antigos grupos da cidade.

Participaram da entrevista: Carlos, Clewerson, Darcy, Bugalú, Alex, Rodrigo, Marcos, Rogério, Carlinhos, Rato, Odete, Leandra, Emili, Ana Paula e Silvana. Também estava presente o Flávio, ex-componente do grupo que montou a Turma da Brisa e pela GB: Elenice, Neide e Salvador.

GB: De forma carinhosa fomos recebidos por todo grupo, conhecemos a sede, o quarto dos resgatados e as demais dependências do local. Em seguida, nós e todo grupo nos acomodamos em um amplo e confortável salão e aí sim, iniciamos a entrevista perguntando ao comandante Carlos (que todo grupo chama de Sr. e que se recusou a dizer sua idade) quando ele viu, na cidade de Osasco, o primeiro balão da era moderna…

ED: Como todo pessoal da velha guarda (começamos a imaginar sua idade) sempre fiz e soltei balões, mas foi lá por 1980 que vi o primeiro gigante. Não conseguia definir a quantidade de folhas ou seu tamanho, mas hoje posso afirmar que era um 4×4 que para a época, era um 15×15.

GB: Quais os primeiros grupos que se formaram na cidade?

ED: Foi o Djalma da Dragões, o Zito com a Turma da Pesada, o Nei da Curvinha, tinha também a Turma do Tempo e nós que começamos como Turma do Belão.

GB: Esse pessoal que você citou acima continua na ativa?

ED: Nem todos. O Zito agita aqui e ali com seus balões e alguns festivais, e nós que jamais paramos.

GB: Dá para lembrar de quem foi o primeiro balão solto em grupo?

ED: Sem dúvida! Foi tão bonito que jamais esquecerei o 4×4 fogueteiro solto pelo Zito, já como Turma da Pesada no ano de 1981.

GB: E o primeiro festival, quem promoveu?

ED: Foi uma revoada em 1982 feita pela Pesada, Dragões e Curvinha. Tivemos alguns problemas, mas sem gravidade, porque tudo era festa e acabou muito bem.

GB: Para fecharmos esta primeira parte, gostaria que você fizesse um rápido retrospecto de 12 anos de balões em Osasco…

ED: As turmas e os balões aqui como em outros locais, sempre se reciclam. Os mais apaixonados não param nunca, como nós por exemplo, muitas turmas novas surgem aqui, algumas “pegam” outras tem vida curta. O resgate em nossa região está sob controle pela conscientização que nós e os mais antigos geralmente transmitimos aos mais jovens, os festivais, com raras exceções, tem tido bons resultados principalmente  sem os fogos e o principal é que “DESCONHECEMOS” qualquer tipo de acidente provocado por balão em nossa cidade, motivo pelo qual todos aqui nos cobram quando passa muito tempo sem a soltura de alguns balões ou a realização de festivais.

GB: Agora vou chamar de Sr. Carlos pelo magnífico retrospecto feito de sua cidade que esperamos sirva como informação e exemplo para muitas pessoas DESINFORMADAS sobre a arte do balão. Vamos iniciar a segunda parte da entrevista conhecendo as origens da Estrela Dalva Baloeiros…

ED: Na realidade, eu (Carlos), comecei em 1983 com um grupo de jovens que demos o nome de Turma do Belão, uma mistura do nome de nosso bairro Bela Vista com balão. Esse grupo existiu até 1988, quando eu mesmo acabei com a turma, porque a rapaziada, talvez por serem muito jovens, brincava muito e trabalhava pouco e no mesmo ano, nasceu a Estrela Dalva Baloeiros com as cores preto e amarelo. O nome foi uma pesquisa que fizemos, não encontrando outra turma com o mesmo nome e o grupo, agora sim, formado por 15 baloeiros entre pai, mãe, filhos, filhas, namoradas e amigos, que fazem lazer trabalhando muito, sempre unidos e na procura constante do aperfeiçoamento, da segurança e da grandeza de nossa arte.

GB: E o primeiro balão, dá para lembrar?

ED: E como! Era um 8×8 de seda com todos erros que tínhamos direito pelo noviciado: Boca torta, o maçarico era tão pequeno que não inflava o balão e muito mais. Acredite, foi um drama, mas no fim, ele subiu e foi só emoção. Isto aconteceu no ano de 1983.

GB: E agora, quais os principais balões soltos pela Estrela Dalva?

ED: Com o pessoal todo puxando da memória, fomos anotando: 4x1x4 fogueteiro em 1989, dois 7×7 fogueteiros em 1989 e 1991, mais dois 6×6 ambos com letreiros: “Carlos” e “Ataliba/Vera”, 4×4 com letreiro duplo “Leandra/Cintia” e muitos 3, 4, 5 e 6 folhas.

Pião de 18m solto no Festival da União em 1991

GB: Um balão sempre marca o grupo, com vocês qual foi?

ED: Tem dois balões que jamais esqueceremos. Um foi o 7×7 fogueteiro solto no início deste ano. Estávamos todos em casa aguardando a passagem do ano e, quando passou a meia noite, foi uma loucura. Até hoje não entendo como tanta gente sabia do balão. Chegava gente de todos os cantos, o telefone não parava e todos dizendo “espera que quero ver o balão”, vizinhos, amigos, pessoas que nunca vi, crianças, jovens, gente de idade, todos delirando de alegria com o novo ano e na expectativa de ver o balão. O balão subiu bonito, iluminou o céu e vi muita gente chorando de emoção, como a fazer um pedido de paz e saúde para o ano que começava naquele instante.

Nota da GB: Uma emoção geral tomou conta de todos que ali estavam e pudemos perceber lágrimas nos olhos do Sr. Carlos, que finalizou fazendo-nos uma pergunta: “Meus amigos, como pode alguém dizer que balão faz mal para isso e para aquilo? Será que poucos não entendem o bem que o balão faz para nosso povo?”

GB:  É, Sr Carlos, é só uma questão de tempo. No passado os poetas e os artistas também foram perseguidos e marginalizados, hoje… Mas o Sr falou de dois balões, qual a história do outro?

ED: É tanta coisa bonita que a emoção nos tira o raciocínio. Mas o outro, como você falou, foi uma surpresa ainda maior. Era meu aniversário (até agora não sabemos a sua idade), parentes, amigos e toda turma em casa comemorando quando em determinado momento, me levaram para o campo e soltaram um 4×4 com um letreiro com meu nome. Se eu sofresse do coração não passava daquele instante. Foi muita emoção e muita felicidade não só para mim, como principalmente para minha esposa e meus filhos. Obrigado meus amigos, jamais esquecerei esses momentos.

GB: Aproveitando esse momento de emoção, a Neide (fundadora da Turma da Lembrança de Guarulhos, hoje “GB” e com muita satisfação para todos nós, voltando a participar agora também no jornal), pediu licença e fez uma pergunta que não estava no roteiro da entrevista: “O que o Sr. Carlos sente quando solta um balão?

ED: Só emoção em ver um trabalho que eu, minha esposa, meus filhos e meus amigos fizemos com tanto carinho e dedicação. Não importa o que gastamos ou o tempo que demorou para ser feito. Importante é que tudo dê certo e graças à Deus, até hoje, balão para nós foi só alegrias.

GB: 0 Clewerson, filho do Sr Carlos, aproveitando o momento, nos informou que a Estrela Dalva está formando um time de futebol de salão e que se preparem, porque o pessoal da turma além de baloeiros por tradição também são bons de bola e se o time de futebol tiver o mesmo sucesso do time de baloeiros, as vitórias estão garantidas. Mas agora a nossa pergunta é sobre gigantismo, o que pensam sobre isso?

ED: A resposta é simples, como a pergunta. Para nós o limite do balão é aquele que sempre é feito com responsabilidade. Aproveito para dar um alerta sobre um balão que tá em evidência, o Truffi. Gente, balão não é guindaste. Vamos com calma e sem exageros.

GB: Agora festivais…

ED: Outro problema. Muita gente nova começando e querendo aparecer. Entendo que a responsabilidade maior é dos organizadores que devem conhecer o potencial dos participantes e principalmente PROIBIR FOGOS. Parabenizo vocês da GB pela campanha de festivais sem fogos, porque a partir daí, os resultados estão sendo ótimos.

GB: O X da questão… Resgates?

ED: O nosso forte não é resgate, mas a moçada sempre consegue algum sucesso. Agora tem que acabar essa desunião na hora da descida do balão. Como já disse no início da entrevista, em nossa região há muito respeito entre os grupos de resgate e quando acontece danos a terceiros, os responsáveis devem assumir os prejuízos. Vocês já tomaram balão de alguém? Não! e nunca faremos assim como nunca alguém tomou um balão que resgatamos. E as invasões em residências? Olha, todo meu pessoal é orientado para não invadir a casa de ninguém, a não ser que seja autorizado e se fizer isso, será desligado do grupo. Assim devem agir os bons baloeiros.

GB: Agora um caso pitoresco…

ED: O nosso é bravo. Não sei se dá para rir ou chorar, mas foi o seguinte: Aconteceu em um resgate. Um elemento do nosso grupo caiu do telhado. Ao quebrar as telhas, ele desceu no meio da cama de um casal que estava tendo relações e como é óbvio, estavam pelados. Foi um pega pra capar… O dono da casa não queria saber, ficou doido e o rapaz que caiu, não sabia se ria, se chorava ou se corria. Mas correr para onde? Imaginem a cena… Conclusão, além do telhado, quase que trocamos a mobília da casa. Foi cama, abajur, toca-discos, criado-mudo e por ai.

Nota da GB: Foi duro para a turma e nós pararmos de rir, porque essa é de fato,  muito pra cabeça.

GB: Tivemos que retomar o fôlego para partir para outra pergunta. Incentivo aos Baloeiros?

ED: Melhora o nível dos balões, mas infelizmente só participa balão de porte, dai…

GB: E a opinião de vocês sobre o PROJETO ART-90?

ED: Acho que é o melhor caminho, porque não incentiva os balões de porte e balão é balão, independente do seu tamanho.

GB: E qual a programação do grupo?

ED: Temos um Truffi de 12m para fogueteiro, um 8×7 que resgatamos no dia 18/06 inteiro da Turma do Lazer que subirá com letreiro “Estrela Dalva” e para o fim do ano um 10×10 fogueteiro.

GB: Espaço Livre…

ED: Às equipes da Grande São Paulo, queremos  deixar aqui nossa mensagem de muita união,  compatibilidade entre todos os baloeiros que, de um modo geral, sejam mais camaradas e se respeitem tanto em solturas, resgates ou qualquer situação que se  encontrarem. Isso é dito, pois, já nos deparamos com muitas situações constrangedoras.

GB: Mensagem Final..

ED: Estamos à disposição para qualquer baloeiro que queira conversar para assuntos relativos a balão, basta contatar o Carlão, ok? Agradecemos a GB pelo espaço dado a nossa turma que nos deixou super contentes com a presença de vocês.

GB: Depois que encerramos a entrevista, fomos convidados pelo Marquinhos para irmos até sua casa. Ao chegarmos, fomos recebidos da melhor forma possível. Estavam comemorando os 62 anos do Sr. João, pai do Marquinhos com uma grande festa e uma deliciosa churrascada. Não temos palavras para agradecer toda a gentileza que recebemos tanto na sede da turma como na casa do Sr. João, um jovem baloeiro de 62 anos. Obrigado à todos.

ESTRELA DALVA: UM CAMINHO DE LUZ E PAZ EM NOSSO UNIVERSO

A Gazeta do Balão agradece a cooperação da Estrela Dalva o que nos motiva ainda mais em prosseguir nosso trabalho.

Esta entrevista foi feita no dia 23 de Junho de 1992 na sede do grupo.

A Equipe de Produção da GB agradece a forma carinhosa como foi recebida e todas as atenções dispensadas durante a entrevista.

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