Edição 29 - Maria Preta | Gazeta do Balão
Edição 29 – Maria Preta
Publicado em 08/01/2019 | 395360 Visualizações

Publicada na edição 29 de março de 1993:

Turma Maria Preta – Interlagos – SP

Participaram da entrevista: Tonhão, Dna. Rosa, Rubinho, Gilberto, Kraca, Dinho e Wagner pela Maria Preta e Elenice e Salvador pela GB.

GB: Numa noite chuvosa, depois de uma longa viagem, chegamos a sede da turma e fomos recebidos pelo jovem e simpático Gilberto que, infelizmente para nós, vestia uma camisa com listras verdes que atualmente faz propaganda de uma marca de leite. Depois de superarmos este “impacto” e aconselhar o rapaz a refletir melhor sobre suas preferências, nos acomodamos ao lado de um belo “trufão” de quase 19 metros e suas 9 fogueteiras, que só não subiu nesta noite devido ao mau tempo, mas vai subir na primeira noite que abrir (o balão subiu em 27 de fevereiro de 1993). Completa a turma, iniciamos a entrevista de uma forma diferente convidando a Dona Rosa (esposa do Tonhão na época) para ser chefe e coordenadora da Campanha Sobras da Felicidade, que arrecadava doações de baloeiros para orfanatos. Após a aceitação por Dona Rosa, partimos para a primeira pergunta, as origens da turma:

MP: Eu(Rubinho), sempre gostei de balões e conheci o Tonhão num resgate de um Maria Preta no Lixão de Interlagos. Junto com um amigo de infância,o Marcelinho e o Sidney, vizinho do Tonhão nos tornamos grandes amigos e íamos atrás de tudo que era balão sempre soltando e pegando muitos Marias-Pretas. Em 83, resolvemos formar uma turma e no dia 23 de junho, nasceu o Clube de Baloeiros de Maria Preta. Adotamos as cores amarela e preta, porém nosso primeiro uniforme era azul devido a um patrocinador, uma fábrica de blocos chamada Pasil. Temos 28 componentes; Rubinho, Tonhão, Gilberto, Kraca, Dinho, Waguinho, Pila, Dona Rosa, Marmitão, Marcelinho, Beto, Expedito, Djalma, Tarciso, Wilson, Boca, Chicão, Zezito, Brinco, Juninho, Fabiana, Tutuca, Mingão, Casca, Laca, Cidão, Eduardo Japonês e o Turco Loco; Somos comerciantes, mecânicos, vendedores, estudantes e alguns desempregados com idade média de 25 anos.

GB: entrou e saiu muita gente da turma?

MP: Olha, esse é nosso maior orgulho. Nestes 10 anos de turma, apenas o Sidney, um dos fundadores, se afastou por problemas pessoais.

GB: Percebemos ao longo da entrevista que a Maria Preta é uma turma muito unida com um espírito humanitário e uma grande responsabilidade pelo seus atos que o Tonhão e Rubinho, os mais experientes transmitem a todos. Apesar de estarmos apenas no início da entrevista, já dava para sentir que seria uma das mais importantes histórias contadas pela GB. Partimos para a próxima pergunta: O primeiro balão, a primeira emoção:

MP: Pode até parecer estranho, mas o nosso primeiro balão “moderno” foi um 3×3 vazado em celofane que começou a ser feito no escritório do Rubinho e finalizado na casa do Tonhão, sede da turma e solto no festival da turma do Morro (Morumbi) em 1986. Até este balão, não tínhamos bancada e só soltávamos balões resgatados ou Marias Pretas que fazíamos no chão ou mesas de nossas casas.

3×3 – 1º balão da turma em 1986, Pião 10m (1987) e 4×4 (1987)

Participar de um festival foi muito importante e emocionante para todos nós. A soltura do nosso “imenso” 3×3 ficou marcada em nossa memória e deu início a uma nova fase da turma.

GB: Como recordar é viver  vamos relembrar os principais balões soltos por vocês?

MP: Ao longo de nossa história soltamos muitos balões. Os principais foram: 3×3 no Festival da Turma do Morro (86), 6×6 campeão do festival de fogueteiros noturnos da Figueira Grande em 87, o 10×10 fogueteiro noturno solto em 5/6/88 em homenagem aos 100 anos da abolição dos escravos que foi vice campeão do Incentivo aos Baloeiros ( a Boca de Ouro na época), um 4×4 também fogueteiro noturno campeão do 1º Festival Sampa e Coração de Ouro em 89, o 10x2x10 fogueteiro noturno mais uma vez vice campeão do Incentivo em 1990, um pião de 28m fogueteiro em 91 e o 12x3x12 fogueteiro noturno solto em 6/6/92 que tem grandes chances de ganhar o Incentivo. Se não der, seremos tri-vice (risos).

6×6 – 1987

Nota da GB: O balão foi campeão do Incentivo aos baloeiros, a Boca de Ouro na época juntamente com o 14×14 da Artimanha, no único empate de toda a história da Boca de Ouro.

GB: Uma soltura ou um balão sempre marca a turma. Existe um fato relevante nestes 10 anos de balões?

MP: Vivemos muitas emoções. Mas o que realmente marcou nossa turma foi o 10×10 solto em 1988. Desde a ideia, o corte, a confecção, a montagem das fogueteiras até o dia da soltura estava dando tudo certo que ficávamos preocupados  achando que algo poderia dar errado. A ideia inicial era de soltá-lo em nosso 1º Festival de fogueteiros noturnos realizado em maio de 88, mas o tempo não ajudou e acabou subindo isolado. A soltura foi perfeita, o balão deu um grande show e arrancou de dentro de todos nós um grito de vitória por tudo que aconteceu. Acabou em segundo lugar, perdemos para o 14×14 da Emenda. Não achamos justo mas valeu a pena todo o sacrifício, afinal éramos uma turma nova e nunca tínhamos solto algo tão grande como um 10×10 fogueteiro noturno.

10×10 – 1988

GB: Aproveitando o assunto, o que realmente aconteceu na soltura do 12x3x12 que abriu margem para muitas dúvidas e interpretações, principalmente aos organizadores do Incentivo?

MP: Sempre fizemos as nossas bocas, e nessa oportunidade, devido à falta de tempo, compramos a boca de um fabricante. Quando o balão estava cheio, algumas soldas da contra-boca começaram a estourar. Fizemos os reparos necessários e na hora que o balão estava nas guias, um rasgo de aproximadamente 20 centímetros, apareceu próximo a boca. Mesmo sabendo que nosso balão era bem feito e extremamente cintado de 10 em 10 centímetros, resolvemos cortar 2 gaiolas por segurança. Deu tudo certo, o balão subiu, deu um grande show e sumiu. Nunca tivemos notícias de onde ele tenha caído.

12x3x12 – 1992

GB: O Luciano da TUV fez uma sugestão de pergunta e ele gostaria de saber onde a turma costuma soltar seus balões?

MP: Sempre soltamos nossos balões no Campo do Acadêmico de Cidade Dutra, aqui ao lado da sede.

Truffi 24m (1993)

GB: Vocês participaram ativamente da montagem e soltura do 27×27 da Figueira Grande. Valeu a experiência adquirida?

MP: Só valeu! Juntamente com o Baldo da Lua de Papel, montamos toda a fogueteira e ajudamos na soltura do balão. Isso nos deixou muito felizes por ter ajudado na soltura do maior Mixirica solto com fogos da história.

GB: Vocês fariam um balão desse tamanho?

MP: Desse tamanho não, mas temos a ideia de fazer um 32×32 fogueteiro noturno em breve.

GB: Aleluia! Como falamos em gigantes, em sua opinião, o nível de segurança dos balões de hoje permite um projeto deste porte?

MP: Sim. Se utilizar materiais de primeira, pessoas altamente experientes e competentes para fechar o balão, não tiver preguiça para cintá-lo e escolher o dia certo, tudo dará certo. Agora, se não seguir isso tudo a risca, todo o trabalho poderá ser prejudicado.

Pião 28m – 1991

GB:  Essa resposta praticamente responde nossa próxima pergunta sobre gigantismo, porém gostaria que falassem um pouco mais sobre o assunto:

MP: fazemos balões grandes porque gostamos. Mas para chegar nestes balões, foram gastos milhares de horas de bancada, troca de experiências com outros baloeiros e muito, mais muitos balões menores em mais de 10 anos.  Os balões gigantes, em nossa opinião são bem mais seguros que os pequenos desde que sejam feitos por pessoas experientes e responsáveis.

GB: Quais os tipos de materiais que utilizam em seus balões?

MP: Sempre utilizamos materiais de primeira como o Rami Cifa, cintamentos de 10em 10 cm na boca e bico e não abrimos mais de 20 cm no resto do balão, a bucha em balões de 20 metros fica sempre entre 30 e 35 kilos e o papel Hulk Finlandês.

GB: Nos passe o histórico deste Truffi de 18 metros que está prontinho para subir:

Papel: Hulk Finlandês Azul com 32 gramas;

Molde e corte: Paulada – Estrellar;

Tamanho real: 4 cones totalizando 18,60m;

Gomos: 76 com largura máxima de 50cm;

Cintamento: Bainhas de 1 centímetro e 152 cintamentos horizontais de Rami Cifa 5 fios;

Respiros: 20 fileiras duplas com 18mm de diâmetro totalizando 3040 respiros;

Cola utilizada: Cascorez Extra;

Tempo de confecção: 6 meses;

Diâmetro de Boca: 1,93m;

Bucha: 21 rolos de estopa parafinada totalizando 30 quilos;

Carga: 9 gaiolas sextavadas com 560 dz. de cometas;

120 dz. de cortadinhos;

10 dz. de bouquets;

20 dz. de apitos;

100 dz. de bailarinas;

12 dz. de varas;

46 bombas de queda;

20 chuvas de prata;

176 paraquedas.

Truffi 18m (1993), 8x2x8 (1995) e Truffi 27m resgatado da Coruja solto em parceria com a Figueira Grande (1995)

GB: Resgate?

MP: Em nossa região, somos todos amigos. Raramente tem brigas e tentamos ser organizados. Só resgatamos balões em nossa área. Respeitamos a área dos outros e quando alguém pega um balão em nossa região, o levam numa boa desde que mereçam. Quando quebramos alguma coisa, pagamos. No pião de 24m da Zeppelin (Tatuapé) que caiu aqui na zona sul, em 89, pagamos a plantação todinha e nem ficamos com o balão. Ele foi apreendido pela polícia e comprado pelo Rocha da Águia de Santo André. O que deveria ser feito em cada região, é buscar um resgate organizado e sem brigas. Essa é a receita para que o resgate dê certo e não atrapalhe nossa arte.

GB: Cite os principais balões que resgataram:

MP: Além desse pião da Zeppelin, resgatamos um 6×6 da Coringas do Ar, um pião de 14m da Ninho da Águia, um 9×9 da Estrela Dourada, o 10×10 fogueteiro da Status, o pião de 24m da Turma do Ar, entre outros.

9×9 resgatado da Estrela Dourada em 1990

GB: Festivais:

MP: O grande problema dos festivais é a competição. Muita gente inexperiente tentando soltar um balão fogueteiro de qualquer jeito apenas para ganhar um troféu de participação. Acho que os fogueteiros devem ser proibidos em festivais. Poderiam colocar fogueteiras de chão para pontuar com o balão. Seria muito mais seguro. Realizamos 2 festivais. Um em 88 e outro em 1990, ambos com sucesso total. Distribuímos troféus a todos e arrecadamos toneladas de alimentos e roupas que foram distribuídos a orfanatos da região pela Dona Rosa.

Pião 14m – Ninho da Águia, Pião 24m – Ar e Pião 24m – Zeppelin todos resgatados em 1989

GB: Incentivo aos Baloeiros:

MP: Falta organização, o regulamento não é muito claro e tem pessoas que não são do ramo na Comissão Julgadora. Apesar de tudo, é válido participar pela tradição do evento, torcendo, é claro, para que os responsáveis cuidem com mais carinho dessa festa.

GB: Um caso pitoresco…

MP: Eu (Rubinho) e o Tonhão estávamos atrás de um balão dentro do autódromo de Interlagos. Quando o encontramos, era um Maria Preta e um cara tinha pego ele sozinho. Assim que nos viu, acredito que pensou que éramos ladrões, pegou o balão ainda com a bucha acessa, enrolou o balão debaixo do braço e saiu correndo. Imagina o que deve ter acontecido!

GB: Regulamentar o balão e formar uma Associação. Como veem tudo isso?

MP: Regulamentar achamos muito difícil, mas se essa Associação realmente sair da papel, só terá sucesso de for administrada por pessoas do meio, bem intencionadas e competentes.

10x2x10 – 1990

GB: Três fatores ou pessoas que fazem algo de positivo pelo balão nos dias de hoje?

MP: A Gazeta do Balão, os balógrafos e o Incentivo aos Baloeiros.

GB: O balão ontem, hoje e no futuro?

MP: Ontem era festa, gostoso, bonito. Valia a pena. Hoje, ainda é gostoso e temos muita coisa boa sendo feita e subindo. É uma atividade sadia que tira a criançada das ruas, das drogas. No futuro, tende a melhorar pois é um lazer sadio, gratuito que reativa a memória de nossas raízes e deve ser sempre modernizado e incentivado.

GB: Espaço Livre:

MP: O recado vai para todos os baloeiros que estão iniciando e querem fazer grandes balões. Comecem treinando com muitos balões pequenos. Nunca encarem de primeira um balão de grande porte sem ter consciência do que estão fazendo.

GB: Mensagem Final:

MP: Agradecemos a Gazeta do Balão pela entrevista onde podemos contar a nossa opinião além de opinar sobre  o balão. Parabéns pela força que dão aos baloeiros pois vocês valorizam uma arte que muitos não reconhecem.

Esta entrevista foi realizada em 11/02/1993 na sede da turma.

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