O Gigante da "Fogueira" Grande | Gazeta do Balão
O Gigante da “Fogueira” Grande
Publicado em 03/03/2019 | 531624 Visualizações

Olá amigos! Hoje vamos relembrar a história de um gigante que foi construído para ser o maior fogueteiro da história, pra marcar o nome de uma turma ambiciosa em busca do topo que ganhou a fama que tanto buscava, porém pelo lado negativo como uma das mais trapalhadas da história do balão, a Figueira Grande.

O bairro de Jardim Figueira Grande fica no extremo sul de São Paulo, próximo a Represa de Guarapiranga. Berço das primeiras turmas de baloeiros da região, essa região entre Interlagos, Embu Guaçu e Jd. São Luis, logo no começo do balão moderno no início da década de 1980, as primeiras turmas começaram a aparecer na região e com o surgimento do campo do Lagos, a prática aumentou consideravelmente, afinal, ir assistir as solturas dos balões na Ricardo Jafet (Ipiranga) era um pouco complicado, pois era um pouco longe.

E foi nesse campo dos Lagos, que contamos a história em outro artigo (clique aqui pra ver), que um jovem engenheiro, apaixonado por balões começou a sua história, o Miltão.

Devido a boas condições financeiras, ele era bem conhecido na região por organizar campeonatos de futebol de várzea e salão. Quando começou a participar do mundo do balão, facilmente sua turma, que levava o nome do bairro que morava, começou a se destacar pelos tamanhos de seus balões e pela busca incessável de bater limites. Ele mesmo nunca colou uma bainha. Por ter um problema na mão esquerda, gostava mesmo era de ver balão pro alto, apenas por satisfação. Sua turma era formada por amigos, vizinhos e baloeiros de outros bairros próximos.

Comparando com os dias de hoje, a Figueira Grande era como a Fábrica dos Sonhos, obviamente no sentido de ter um líder que bancava praticamente tudo e as pessoas que faziam os balões pra ele em diversos locais e, como dinheiro não era o problema, qualquer balão que quisesse fazer, eles faziam.

Com isso, além de fazer os balões que queria, começou a ficar conhecido no meio do balão e, como acontece com muitos, o ego fez com que quisesse mais e mais. Além de soltar muitos balões, histórias de resgates onde ele levava o balão por bem ou por “mal” são frequentes nas bocas de baloeiros da época. Eu mesmo já fui com meu pai algumas vezes atrás de balões com ele e pude perceber que ele não tirava aquela Chevy dourada da garagem pra gastar gasolina, ele saia pra pegar balão! Nem que esse “pegar” se resumisse a comprar, trocar, subornar e até tomar o balão. Eu mesmo nunca presenciei isso, mas já ouvi muitas histórias sobre isso.

Mas enfim, o Miltão era um baloeiro ambicioso, queria fama e poder, fato é que chegou onde chegou nos dias de hoje. Mas o assunto aqui não é política e sim balão então, voltando ao assunto principal, a Figueira Grande, assim como seu dono era uma turma que queria bater limites e pagou caro por essa ambição.

Todos sabemos que soltar balões grandes, exige experiência, pessoas competentes para fazer o balão e acima de tudo para soltá-lo. Mas no começo, o foco da Figueira Grande não era esse. Era apenas de ser a maior, soltar o maior, custe o que custasse.

Sua primeira tentativa foi em 1987 quando tentou por diversas vezes soltar um 17×17 fogueteiro noturno no Campo do Lagos. Depois de diversas tentativas atrapalhadas pelo vento, ele subiu, os fogos abriram quase no chão e foi um corre corre imenso. Depois desse balão, em 06 de junho, soltaram um pião de 28 metros também fogueteiro num campo na Av. Guido Caloi onde hoje passa o viaduto de acesso a Avenida Luiz Gushiken. Mais uma vez os fogos abriram baixo e muita gente (inclusive eu) correram muito.

Veja o Vídeo:

 

Logo após essas duas “trapalhadas”, soltaram alguns balões com sucesso como outro Pião de 28m em 1988 em homenagem ao aniversário de São Paulo e um 8×8 com uma armação ilustrando o ativista Indiano Mahatma Gandhi:

Veja os Vídeos:

Com o passar do tempo, rapidamente a Figueira Grande foi ficando conhecida em todo o mundo do balão. Pelo lado bom ou ruim, é fato que a fama chegou e, automaticamente, o tamanho dos balões também aumentavam.

Mesmo tendo algumas pessoas de enorme talento na turma, o “chefe” como alguns chamavam, começou a ir acompanhar a soltura de alguns balões gigantes na época como o 23×21 da Praça de Pirituba e o 54m da Cometa e Gabriel no Rio de Janeiro, nas quais fomos com ele, mostrando claramente que queria fazer um gigante também.

E, em 1990, enfim, veio a ideia de fazer um gigante, o maior fogueteiro de todos até então e com 46 metros, 2 a mais que os feitos até então: o da Praça e o do Paulistano, ambos 23×21 (44 metros) que curiosamente, não subiram:

O balão teve sua tentativa de soltura em 14 de junho de 1990, um dos anos mais históricos do mundo do balão, em plena Copa do Mundo e festas juninas num sitio em Colônia Paulista, um bairro no extremo sul de São Paulo pertencente a zona rural de Parelheiros.

Acredito que teve por volta de 1500 pessoas naquela manhã. O balão foi inflado, iria levar uma boa carga de fogos entre cortadinhos e rojões de varas distribuídas em 8 gaiolas. Agora, o que aconteceu? Vamos ver os 3 únicos vídeos que encontrei até hoje sobre aquela manhã histórica:

O pouco que lembro da história desse balão é que ele foi feito por diversas turmas “amigas” numa espécie de consórcio. Desde a época dele diziam que cada turma fez um cone, não marcaram a direção das bainhas e na hora de unir os cones, as uniões ficaram invertidas, o que pode ter ajudado na explosão do balão nas guias, além claro da forte brisa que veio justo na hora que o balão estava nas guias.

Foi uma correria só! Meu pai dizia que viu gente atravessando um rio que tinha atrás do galpão sem se molhar. Eu mesmo estava pro lado contrário na rua, e apenas abaixei entre os carros. O ponto triste desse dia foi que depois de tudo, vi muita gente enchendo as jaquetas de bombas. Mais da metade da carga foi literalmente furtada por muitas pessoas.

Tudo que aconteceu naquela manhã pode ser resumida em uma única palavra: “bagunça”. Hoje, depois de muitos anos vendo e soltando balões, posso afirmar que poderia ser evitado. Um balão de 46 metros, feito no Hulk poderia sim ter subido se tivessem escolhido pessoas capacitadas para fazer, para soltar e claro, com um local melhor, afinal, quem conhece bem a região sabe que ela é traiçoeira em relação a clima por estar próxima a Serra do Mar e de lá que vem tudo que não presta pra baloeiro, principalmente o vento.

Tanto pra mim que estava lá (as fotos são minhas) quanto quem assiste os vídeos, percebe que a confecção do balão era ruim. Todo enforcado, torto e também percebe-se que, quando ele estoura, dava sim pra tirar ele dos fogos, mas, “misteriosamente”, puxaram o balão pra cima das gaiolas.

Apenas 1 gaiola com 200 dz. de cortadinhos foi salva no meio dessa confusão e foi solta no Pião de 28m da Maria Preta no ano seguinte:

Fato é que tudo isso serviu de grande aprendizado ao Miltão e todos da Figueira Grande. Na língua dos maldosos ficou conhecida como Fogueira Grande devido a suas trapalhadas, mas ao contrário de tantas turmas que até acabaram por causa de falhas como essa, a Figueira cresceu, aprendeu e depois desse balão, seguiu em busca de soltar o maior fogueteiro da história e conseguiu isso em 1993 com seu 27×27 que já contamos sua história (clique aqui para ver) e até hoje é o maior Mixirica fogueteiro diurno solto.

Como todos sabem, o Miltão parou com balões em 1996 quando se elegeu vereador por São Paulo, onde está até hoje e só nos resta lembrar os feitos bons e ruins da passagem da Figueira Grande pelo mundo do balão.

Abraços a todos
Dinho

Gostou? Curta e Compartilha!
  • 354
    Shares

Mande seu Recado:

Copyright © 2006 / 2019 - Gazeta do Balão | Todos os Direitos Reservados - Permitida a reprodução com citação da fonte
error: Não copie, compartilhe!