O ignorante e seu monstro | Gazeta do Balão
O ignorante e seu monstro
Publicado em 16/01/2019 | 426475 Visualizações

Hoje vamos conhecer a história de um homem e seu único balão, um monstro tanto no tamanho quanto na sua história que, mesmo depois de quase quatro décadas de sua soltura, impressiona a todos nós. O maior Mixirica construído na história: o 33×33 da Piratas do Céu de São Caetano do Sul, cidade do Grande ABC em São Paulo.

Idealizado por um único homem que, com a ajuda de um grupo de amigos, talvez nem imaginavam que entrariam para a história do balão pelo seu feito. A história dele é fascinante, já conhecia boa parte dela e na festa do Museu do Balão no fim do ano passado, tive a honra de conhecer o mentor de toda essa loucura, o Paulinho Ignorante, que ganhou esse apelido devido a esse feito e me contou em detalhes como foi essa “brincadeira” de 05 de setembro de 1982.

Como todo jovem dos anos 1980, Paulinho, na época com 31 anos, era um amante de balões juninos, os Marias-Pretas. Numa noite, estava atrás de balões em Utinga, bairro de Santo Andre no ABC, quando encontrou num resgate de um caixinha de 16 folhas, um amigo chamado Gil que também estava atrás do balão e fazia parte de uma turma chamada Baloco. Num momento de bate papo, ele lhe falou sobre os novos tipos de balões que o pessoal estava soltando e lhe mostrou algumas fotos de um balão com centenas de lanternas que imediatamente lhe deixou fascinado, pois nunca havia visto algo parecido.

No dia seguinte foi com ele até a Ricardo Jafet, avenida do bairro do Ipiranga, próximo a São Caetano que era o point de soltura de balões em São Paulo. Nessa noite, viu um 4×4 da Turma da Amizade e foi aí que ele conheceu o balão moderno, o Mixirica com lanternas, algo inédito pra ele que só conhecia os balões maria preta e ficou encantado.

Dias depois, esse mesmo amigo lhe mostrou um álbum de fotos que tinha fotos do Pião de 32m da Turma do Cachambi, o famoso Pião da Bandeira e, num comentário em tom de brincadeira, perguntou: ” E se eu fizesse um maior, com o dobro desse?”.

O emblemático Pião de Ivo Patrocínio e sua Turma do Cachambí serviram de inspiração para a criação do Monstro do ABC

Mesmo em tom de brincadeira, a ideia não era “ruim” e vira e mexe, lhe vinha na cabeça a vontade de fazer um balão gigante. Dias depois, num domingo, ao passar em frente a um galpão na Av. Presidente Wilson em São Caetano, observou algumas bobinas de papel. Parou o carro e perguntou ao segurança do galpão sobre os papéis e ele disse que eram sucata, que iriam para o lixo. Depois de um bate papo, ele conseguiu pegar as bobinas e as levou pra casa. Sempre que podia, fez algumas visitas a bancada da Baloco onde aprendeu as técnicas de confecção de balões e decidiu começar a fazer o gigante.

Pouco tempo depois, indo para Itu onde tinha uma fábrica de plásticos pela Rodovia Castelo Branco, cruzou com uma Kombi cheia de bobinas de papel, pediu pro motorista parar e comprou os papéis.  E assim foi, onde achava papel ele comprava. Conseguiu papel suficiente para fazer o balão, mas não eram os tipos de papel que os baloeiros usavam na época como o Floor Post ou Kraft. Eram bobinas e mantas de papel jornal e couché, muito mais frágeis e pesadas que os papéis até então utilizados para fazer balões.

Ciente da fragilidade do papel, sabia que o balão deveria ter um bom cintamento e, enquanto emendava as folhas em sua casa, utilizou rolos de barbante que pegou num lixão pois não conhecia o Rami. Foram 2 semanas pensando em como fazer esse cintamento. Até a hipótese de fazer uma rede gigante, abrir o balão numa quadra e aplicá-la por cima foi pensada, mas escolheu fazer esse cintamento cruzado nas mantas sob a mesa da cozinha de casa.

Com  o tempo, a emenda das folhas foram ganhando espaço e o corredor de casa que estava programado para ser o local onde o balão seria feito ficou pequeno e foi necessário encontrar um local maior.

Numa certa manhã, foi ver um jogo na quadra de uma escola em São Caetano do Sul perto de sua casa que estava desativada na época devido problemas estruturais e viu que lá tinha o espaço que precisava pois tinha um imenso corredor lá.

Hoje, a escola abandonada onde o balão foi feito é a APAE de São Caetano do Sul.

Como quase ninguém em São Paulo conhecia a técnica de construção de balões em cones na época, tinham que fazer o balão inteiro. Ele aproveitou umas barricas imensas que tinha e poderiam servir de cavaletes, pegou portas das salas de aula e de alguns armários e construiu uma imensa bancada de 72 metros no corredor da escola.

No começo de 1982, a notícia sobre a confecção do monstro se espalhou e se tornou uma fobia onde todos os baloeiros de São Paulo queriam saber dele, onde seria solto e tudo mais. Depois de 6 meses fazendo o balão praticamente sozinho, o amigo Osni o chamou para um almoço com alguns amigos para que ele contasse essa história e depois desse almoço, todos foram para a escola ajudar e aí nasceu a Turma Piratas do Céu.

Confeccionar aquele monstro não era fácil não. Imagine caminhar 132 metros por gomo. O Balão tinha 77 gomos de 1,72 metros na sua maior largura. Fora o cintamento, que foi feito na forma cruzada para compensar no cintamento, a má qualidade do papel que era muito ruim.

Foi nessa época que o apelido de Ignorante apareceu vindo do Gil. Ao visitar a escola e ver aquele monte de papel, deu um enorme grito chamando-o de ignorante. E pegou!

Durante 1 ano, que foi o tempo gasto para fazer o balão, foi um imenso trabalho. O balão foi feito em 10 partes. Começavam na sexta e no domingo retiravam tudo.

Depois de pronto, colocaram o imenso pacote numa prancha utilizando algumas portas o e levaram para a casa de Paulinho onde ficou na garagem por meses esperando o tempo abrir, além de encontrar um campo adequado para soltá-lo.

Nessa época, um integrante da turma tinha um açougue e comentou com um cliente sobre o balão. Esse cliente era um repórter do jornal de São Caetano. Aí já sabe né? De uma matéria no jornal local, logo apareceu outras e no Diário do Grande ABC, um dos maiores jornais de São Paulo veio a manchete: ” Enquanto isso em São Caetano, vão soltar um balão de 10 mil folhas”.

Dias depois, outra matéria no mesmo jornal dizia que o delegado iria intimar Paulinho Ignorante. Ao ver isso, procurou uma advogada amiga para se preparar caso a intimação chegasse. E ela chegou mesmo!

Já sabendo o que as leis da época diziam, ao chegar para depor na delegacia, disse ao delegado que o balão não seria solto com bucha, portanto não infringia as leis (Artigo 28 do código Florestal na época) que diziam:

“Soltar balão aceso sem licença da autoridade em lugar habitado ou em suas adjacências, ou também em via pública ou em direção a ela. Pena: Prisão simples de 15 dias a dois meses ou multa”.

“Já que o  balão não vai ser solto com fogo, então não vou infringir nenhuma lei, não é?” disse Paulinho ao delegado que, obviamente, ficou sem reação, mas pediu que ele assinasse um termo de responsabilidade provando que o balão não seria solto com fogo.

O balão até iria ser solto com bucha, a churrasqueira estava até pronta, mas com medo de ser preso, Paulinho optou em soltá-lo sem bucha. Resolvido o “problema” com a Polícia, agora tinha mais um: onde soltar?

Depois de ver muitos campos e não gostar, numa manhã atrás de um balão que caiu no Morro do Cruzeiro na divisa de Santo André, avistou lá de cima do morro um descampado. Desceram até lá e viram que ali seria o local ideal.

Na véspera do dia da soltura, levaram o balão para um terreno ao lado de sua casa para colar a boca, colocaram no caminhão e na madrugada saíram junto com apenas alguns amigos e baloeiros mais chegados em carreata até o Morro do Cruzeiro.

O dia clareou, tudo pronto e aí começou a batalha para encher o balão. Levaram 7 sete maçaricos que não enchiam o balão. Chegaram a amarrar a enorme boca na trave, que foi feita com ferros de construção e media 4 metros de diâmetro. Entraram dentro do balão para enchê-lo do meio pro bico e aos poucos, o gigante foi enchendo e tomando forma.

Alguns baloeiros subiram no caminhão e foram buscar mais maçaricos e botijões de gás com as turmas da região e perderam a soltura. Depois de muito sofrimento, o balão foi tomando forma, enchendo, ficando imenso e ai veio a brisa.

Ninguém conseguia segurar. Tinha mais de trinta pessoas segurando a boca e o balão arrastando todos. Aí decidiram soltar o monstro mesmo sem encher completamente senão iriam ficar com a boca na mão.

E assim foi. O balão subiu, ficou de lado, virou de cabeça pra baixo e começou a cair no topo de um morro próximo.

Foi um momento de tensão. O balão rolou morro abaixo, apareceu do outro lado, voltou a subir e parou sobre a represa Billings. Como não havia lastro (algo preso a boca para dar equilíbrio),  parecia uma nave alienígena, assustando os moradores da região, paralisando feiras e clubes, conforme foi noticiado por vários jornais da época.

Conforme o balão foi aquecendo pelo sol, pegou forma e começou a subir. E subiu muito mesmo, chegando a ficar uma bolinha no céu. Foi aí que ele abriu, começou a murchar e cair rapidamente.

Todo mundo foi trás do monstro pela Rodovia Índio Tibiriçá e após 2 horas de voo, caiu numa quadra de futebol na cidade de Rio Grande da Serra, cidade próxima a Santo André.

Quando os baloeiros chegaram a molecada estava subindo no muro da quadra e pulando sob o balão como se fosse um imenso pula-pula. Aí colocaram fogo na papelada e a boca, que foi levada pela Piratas, virou estacas de armação.

Sim, ele tem um vídeo gravado em Super 8 pelo Odair da Turma da Lua:

O que mais impressiona em toda essa fascinante história é que, tantos anos se passaram, as técnicas e materiais evoluíram e, até hoje, ninguém tentou fazer algo assim, falando de Mixiricas, claro!

Quem mais chegou perto foi a Figueira Grande em 1993 com seu 27×27. Mesmo assim, o feito de Paulinho e seus amigos está registrado na história como uma das histórias mais fascinantes do mundo do balão. Dizem que, quando fizemos algo fenomenal, nem precisamos fazer mais nada na vida. E foi assim! Ele “só” fez esse balão. E precisava mais?

Um abraço a todos.

Dinho GB

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