Por que os balões estão cada dia mais chatos? | Gazeta do Balão
Por que os balões estão cada dia mais chatos?
Publicado em 04/03/2019 | 855953 Visualizações

Olá amigos! É impossível não fazermos comparações entre o mundo do Carnaval e o dos nossos queridos balões. Assim como no Carnaval, as turmas de baloeiros se reúnem, escolhem temas, dedicam horas, dias e meses para confeccionar os balões e tudo que é ligado a ele como adereços, bandeiras, lanternas e decorações.

Obviamente, sabemos que, se o balão não fosse proibido, muita coisa seria mais evoluída e segura, afinal tudo que temos no balão nasceu em laboratórios “amadores”, as nossas bancadas. Aprendemos com os erros dos outros, com os nossos e, com o passar das décadas, o balão foi ficando cada vez mais seguro e com a tecnologia, muito mais bonito. Quem tem um pouco de experiência com balões sabe que é possível soltá-lo de forma segura, em locais apropriados e claro, que caia apagado. Agora, se não fosse proibido, quem sabe com ajuda de uma USP, uma UFRJ, não poderíamos encontrar técnicas mais inteligentes para que nossa prática fosse mais segura?

Voltando a comparação entre ambos os mundos, ao meu entender, existem muitas diferenças entre o Carnaval e os balões como por exemplo a escolha de temas e enredos para os balões. Eu sempre digo que o mundo do balão está ficando chato, sem graça. E não é de hoje. 

Se no Carnaval, a cada ano, as escolas pensam, debatem, escolhem e pesquisam tudo sobre um assunto para levá-lo a avenida com perfeição, no balão infelizmente não é assim. Foi se a época que turmas pensavam, pesquisavam… Hoje, na maioria dos casos, só vemos balões espelhados, desenhos iguais, temas exaustivamente repetidos. Até vi projetista copista (que só cria desenhos em cima de referências) brigar no Facebook porque apareceu um projeto a venda com o mesmo desenho que ele fez em um projeto como se fosse um plágio, mas esqueceu que o mesmo desenho que ele usou e pegou no Google, muita gente já usou, não tinha nada de inédito e fenomenal.

O que vejo é que muita gente quer apenas por balão pro alto, não importa mais apresentar algo que mereça ser lembrado, fato é que, muita gente só lembra de balões antigos de décadas passadas. Tem gente que solta um balão e ele some na memória de muitos. Por que será?

Vejamos, por exemplo, as décadas de 1980 a 1990. Pra quem viveu ou gosta de história, lembra da “guerra” entre as turmas de baloeiros no Rio e em São Paulo pelas Bocas de Ouro, o reconhecimento máximo que muitas turmas querem ganhar. 

Para convencer os jurados, eles ralavam muito. Faziam balões temáticos, com desenhos pesquisados em bibliotecas, revistas, enciclopédias e claro, com a criação vinda de muitos desenhistas talentosos ao montar os leques. Com isso, sempre que íamos a algum campo ver uma armação, sabíamos que iríamos ver um grande projeto, um balão diferente. Já hoje? A gente vai porque gosta e não porque vai ver algo fenomenal. 

Exemplos temos vários, mas separei alguns balões que foram marcantes pelo excelente trabalho de “Carnaval” que as turmas que os criaram tiveram ao pensar, pesquisar e apresentar seus trabalhos:

9×9 – Realengo (1987), 10×9 – Cometa (1991) e 9×9 – Amizade (1990)

Os exemplos acima mostram projetos bem elaborados e apresentados durante os anos de ouro das armações cariocas como o Vitral da Realengo em 1987 criado por Edson de Guadalupe, desenhista da Realengo, o inesquecível Michelângelo da Cometa criado pelo Cabelinho e o balão dos Orixás da Amizade, Boca de Ouro em 1990.

Já em São Paulo, também tivemos muitos balões bem pensados, com desenhos criados através de muita pesquisa aliados a criatividade e talento de muita gente. Vamos relembrar 3:

11×11 – Estrellar (1991), 10×8 – Severa Albatroz (1991) e 9×9 – Zeppelin (1989)

Nos exemplos vemos balões inesquecíveis como a Amazônia de Chico Mendes criada pelo Edu da Estrellar, a Guerra dos Mundos criado pelo Marcão da Severa e a Pré História da Zeppelin do Tatuapé, Boca de Ouro em 1989.

E os diurnos? Claro que a magia de uma ou milhares de lanternas é diferente, mas tem muito balão diurno que ficou marcado também. Vamos ver 3 exemplos do Rio e 3 de São Paulo:

24m – Tropicália (1992), 19m – Coruja (1989) e 22m – Serpente (1997)

9×8 – Luar de Vila Sônia (1991), 30m – Emenda (1989) e 24m – Alfa (1991)

É obvio que podíamos ficar o dia todo falando de balões marcantes, afinal, cada um tem sua memória, suas preferências e isso faz parte. O assunto em questão é o porquê que isso tudo é tão raro nos dias de hoje?

Se na geração sem internet tínhamos muitos balões com temas religiosos e de revistas em quadrinhos, afinal era mais fácil encontrar ideias pra esses temas, sempre que alguém apresentava algo bem pensado, estudado e trabalhado se destacava.

Já hoje, com a Internet, não precisamos mais ir a bibliotecas, comprar livros e revistas. Temos tudo isso numa simples busca no Google, mas em vez de melhorar, piorou!

Talvez seja pelo excesso de gente criando projetos e vendendo pra tudo quanto é lado, afinal, não é preciso “andar” muito para encontrar um projetinho. Como em todo mercado de comércio, o que manda é a produção, é obvio que pra quem cria esses projetos para a venda, prefere fazer um espelho. Além de ser rápido, economiza em papel e canetinhas. Já o baloeiro, economiza em quê? Gasto de neurônios? Afinal, foi se a época que turmas se reuniam para debater sobre os próximos projetos da turma. É mais fácil chegar com algum leque comprado, ganho numa rifa ou até mesmo plagiado por alguém e fazer.

Ah, Dinho você está sendo muito radical…. Será mesmo? Esses dias procurei um talentoso desenhista e pedi um projeto específico na qual ele teria que ralar um pouquinho e sabe o que ele disse? Que não faz nada por encomenda. Prefere fazer vários espelhinhos e sair vendendo por ai…

Por isso que falo que o mundo do balão está chato. Ninguém mais pensa, ninguém quer fazer algo diferente e quando alguém faz, (o que são poucos nos dias de hoje) fica marcado, claro pela beleza de seus trabalhos, mas também pelo encanto que seu balão apresentou por ser diferente.

28m – Progresso (2009), 32m – Amor a Arte (2008) e 58m – Balopira (2017)

Separei 3 exemplos para “defender” a minha tese. Todos estes balões mais recentes são bem lembrados não só pela beleza de cada um, mas porque seus temas, atraem nossa atenção pela história apresentada. O balão da Progresso contando a história do Egito antigo criado pelo Junior, o da Amor a Arte o mundo dos Motoqueiros através de caricaturas e a cultura Asteca do balão da Balopira pelo Sola.

Agora, se olharmos no mundo do balão em geral, essa forma de “pensar” num balão para apresentar um bom trabalho está cada dia ficando mais de lado. Sinceramente gostaria de saber o porque de essa espécie de retrocesso numa época onde o acesso a informação é melhor e poderia ser o inverso?

É claro que balões de homenagem a pessoas e personalidades faz parte e existe desde os primórdios do balão. Sempre vamos ver balões, bandeiras, armações e letreiros homenageando alguém, é claro, mas e o lado da arte voltada a arte, como nos Carnavais?

Sei lá! Pode ser que eu esteja sendo saudosista demais, que deveria aceitar que o mundo do balão mudou e o “prático” é mais importante que o diferente. Mas eu sou diferente, sempre busquei fazer o melhor, me destacar em tudo que faço e colhi muita coisa com isso, mas sou eu né? Cada um é cada um.

Pra mim o mundo do balão é chato. A gente sai de casa pra ver, fotografar um balão porque gosta de balão, mas sempre é bom chegar num campo e ver algo diferente da rotina que vivemos.

Participem desse debate. Sempre é bom ver o que outros pensam.

Abraços a todos

Dinho

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