Nesta edição da GB trazemos uma, senão a primeira turma de baloeiros de São Paulo, nascida numa época de ouro, onde confrarias de amigos se reuniam todas as noites boas para resgatar, aliás, correr atrás de balões como era conhecida esta atividade. De simples piões de gomo torto a caixas, almofadas, charutos e tantos outros Maria-Pretas, um grupo de amigos acabou fazendo de seu hobby um vício e nos anos seguintes, a turminha que se reunia na praça se tornou a Turma da Praça,uma das mais importantes turmas de baloeiros da história do balão em São Paulo.

Participaram desta entrevista Edu, Daniel, Paulinho (GNB Paixão), Magrão (Emoção), Marquinhos,  Rafinha, Totó. Tinão e Xurupita.

GB: Como foi o início de vocês no mundo do balão?

TP: No começo dos anos 70, eu (Totó), o Xurupita e mais uns amigos tínhamos o costume de nos reunir numa Praça na Avenida dos Bandeirantes, muito conhecida na zona sul de São Paulo, pois ela corre paralela a pista do Aeroporto de Congonhas.

A cada noite ficávamos esperando os balões aparecer para ir atrás. Tinha noite que chegávamos a reunir 30,40 pessoas nesta praça e na época das festas juninas, chegamos a pegar 35 balões na mesma noite. Naquela época não existia os balões “modernos”. Eram sempre Chineisinhos, Bocudos, Caixas, Almofadas, os conhecidos Maria-Pretas. O que aparecia piscando no alto a gente saia que nem doidos atrás. Guardávamos todos os balões e os soltávamos nas festas juninas.

 

GB: Qual a importância desta praça pra todos vocês?

TP: Lá foi sem dúvidas um dos principais pontos de encontro dos baloeiros durante as décadas de 70, 80 e 90. Muita gente que simplesmente gostava de balões ia pra lá pra conhecer novos baloeiros, aprender, bater papo e claro, correr atrás de balão. Tínhamos o costume de chegar, acender uma fogueira e esperar os balões aparecerem. Muitas vezes, assávamos batatas, fazíamos churrascos e algumas vezes saíamos atrás de algum balão e quando voltávamos, a molecada comia tudo. O Magrão era um dos ladrões de batatas. (risos). Ganhamos muitos amigos em nossa passagem por lá. Já nos últimos anos, uma molecada começou a crescer com a gente e entre elas, tínhamos o Washington – o Magrão, hoje na Emoção (ZS) e o Paulinho (GNB Paixão).

Entre as décadas de 70 a 80, de segunda a segunda as reuniões na pracinha eram constantes e podemos dizer que talvez a sua tradicional fogueira nesse período nunca tenha se apagado, pois a qualquer hora aparecia um para abastecê-la (risos). O cara que mais aparecia no fim das tardes era o Bira, conhecido vendedor de fitas de balões na época que chamávamos de “pouca sorte”.

Nos últimos anos, com o crescimento imobiliário, hoje onde era a praça ficam o Hotel e a conhecida boate Bahamas. Muitas turmas nasceram nessa praça e isso nos orgulha muito.

 

GB: Porque escolheram Turma da Praça?

TP: Em 1978, tinha tanta gente atrás dos balões e, inevitavelmente, aconteciam brigas e, em muitas delas, os balões rasgavam, queimavam. Por muitas vezes isto acontecia entre nós, pois na hora que o balão tá caindo, na adrenalina ninguém vê nada. Resolvemos então criar uma forma de nos identificar debaixo dos balões. Decidimos fazer uma camiseta amarela com o nome de cada um no peito assim, na hora dos resgates ficaria mais fácil de identificar quem era da turma e quem não era. O nome Praça era inevitável, pois éramos conhecidos como os baloeiros da Praça do Aeroporto. Acredito que este foi o primeiro uniforme de turma de baloeiros de São Paulo.

 

GB: Quais os primeiros balões?

TP: Como dissemos, nosso negócio era “pegar balão” e soltá-los, obviamente. Mesmo que eles rasgassem, remendávamos e mandávamos pro alto de novo. O primeiro balão “moderno” que fizemos foi um 3×3 de Floor Post em 1980 para o Festival da Turma da Amizade, o primeiro festival de balões de São Paulo que foi realizado na Ricardo Jafet. O balão tinha chances até de ganhar, pois era muito bonito, mas um dos nossos amigos o Chophen, rasgou ele todo de tanto arrastar ele de um lado para o outro. Nossa primeira armação foi um 3×3 que eu (Totó) peguei na Chácara Flora e o soltamos com uma armação retratando um ursinho:

Nosso primeiro balão de grande porte foi um 7×7 também de Floor Post em 1984. Como era difícil arrumar Kraft e Hulk, o Papel Floor Post foi muito utilizado na época em balões grandes porque ninguém acreditava que a seda agüentaria. Sua confecção demorou mais de 2 anos porque todos os dias que nos reuníamos para fazê-lo, sempre parávamos a confecção para ir atrás de algum balão. No fim, acabamos dando este balão para um amigo chamado Marcão.

 GB: Vocês tiveram algum auxílio para essa mudança dos Maria-pretas para os balões modernos?

TP: Sim. No começo da década de 80, era época dos festivais da Ricardo Jafet e fazíamos nossos balões no chão e numa mesa de Ping Pong na casa do Totó. A convite do China e do Ênio, fomos na bancada da 10 de Ouros para conhecer  novas técnicas de confecção como cintamentos, respiros e até mesmo a forma de fazer os balões. De certa forma começamos a se enquadrar aos padrões das grandes turmas e cheguei (Totó) a abrir uma conta no banco para recolher mensalidades para podermos comprar os materiais para fazer os balões. Na época não era como hoje onde se encontra de tudo. Por isso, nós mesmos fazíamos praticamente tudo do balão, as lanterninhas, bocas, etc.

 

GB: Como começou a parceria com a Turma de Moema?

TP: O Celso fazia balões com sua namorada e na hora de soltar nos chamava para ajudar. Naquela época tinha muito disso. Quando um balão ia subir, sempre estávamos lá ajudando. Por muitas vezes emprestávamos a nossa bancada, materiais aos amigos. Tínhamos um galpão com várias bancadas e as turmas vizinhas se reuniam lá para fazer os balões. Naquela época, era comum cortar o balão no domingo, fazê-lo na semana e soltá-lo no sábado, e a soltura era um evento que parava a região.

 

GB: De tantos balões soltos pela Turma da Praça, quais foram os mais marcantes em sua opinião?

TP: Foram sem dúvidas os balões vencedores de praticamente todos os principais festivais das décadas de 80 e 90 além claro, do 15×15 fogueteiro noturno solto em 1989.

 

GB: Como decidiram fazer um gigante fogueteiro.

TP: Tudo começou anos antes quando o Tinão cortou um 20×20 para a Figueira Grande. Pouco depois, o Pinduka que era da Turma do Cumpadre e veio fazer balões conosco, tinha acabado de dissolver uma sociedade com o Silvio em uma loja de fogos e procurou o Miltão da Figueira para lhe vender os fogos. Acabou fazendo uma troca com ele pelo 20×20. Com o corte na mão, tiramos este 15×15, metade de um 10×10 e um pião de 20 metros que está guardado até hoje. Pra gente foi muito legal e uma grande experiência. O balão não teve muito sucesso porque tinha muita neblina e o balão queimou após o fim da queima dos fogos.

 GB: De todos os troféus ganhos por vocês, quais foram os mais importantes?

TP: Ganhamos o primeiro lugar nos principais festivais de São Paulo como os da Pingo de Ouro, União, Campinas, Balão Mágico, 2 Rodas além do mais importante que foi sem dúvidas, o troféu dado pela organização da Boca de Ouro de São Paulo na festa de entrega dos troféus dos campeões na Mansão dos Nobres em 99. Recebemos um troféu por ser uma das 10 melhores turmas da década devido aos títulos em festivais. Também ganhamos um troféu de destaque numa exposição no Tennis Clube de São Paulo organizado pelo Ivan da Dez de Ouros. Este balão foi solto tempos depois no festival da Duas Rodas e ganhou outro troféu.

 GB: De onde tiravam a inspiração para seus projetos?

TP: Eu, (Tinão) Junto com meu irmão Amadeu, já falecido fazíamos nossos projetos. Não sabíamos desenhar, mas éramos bons em reproduzir qualquer desenho. Depois o Celso da Turma de Moema riscava o balão pra gente. Nunca pagamos alguém para fazer um leque, nunca concordamos com isso. Nossos projetos sempre foram feitos por nós mesmos. Não importa que se em algum balão, por exemplo, a mulher era feia, parecia um travesti. Para nós o que importava é que nós mesmos que fazíamos, mesmo que os desenhos não fossem tão perfeitos como nos dias de hoje.

 GB: Participaram de Resgates? Se sim, comente alguns que merecem ser lembrados.

TP: Nós pegamos muitos balões, na maioria pequenos. Eu (Totó), tinha uma Kombi 73. Enchia de gente dentro e saia atrás de balões pra tudo quanto era lado. Entre os maiores, pegamos um 10×10 da turma do Morro. No dia do casamento do Xurupita em 83, pegamos um 5×5 fogueteiro duas ruas abaixo do Buffet e o dobramos lá dentro no meio da festa. Foi um dia louco. A luz acabou, a festa atrasou, soltamos um balão e ainda pegamos outro. A mulher do Xurupita até hoje não é muito fã de balões e me lembro que ela ainda falou: “Pô, até no dia do meu casamento?”…

 

GB: Em sua opinião, o principal fator que prejudica a nossa imagem quanto à sociedade é o resgate ou os balões fogueteiros?

TP: Os dois, por mais que os resgateiros se achem na razão, muita gente vai para fazer baderna, acabam destruindo telhados, cercas e portões. Já os fogueteiros, quando mal feitos ou planejados, podem machucar, causar incêndios, acidentes. A única coisa boa do balão fogueteiro é que ele cai, na maioria dos casos apagado. Antes os resgates não ofereciam muitos problemas porque os balões eram pequenos, tinha poucos adeptos, não havia muitas casas. A zona sul era composta por muitos terrenos, as ruas eram mais calmas e hoje, as coisas já não são mais assim.

 GB: O que vocês acham que deveríamos fazer para mudar?

TP: É questão de consciência. Por muitas vezes participamos ou apenas acompanhamos reuniões entre baloeiros para acabar com brigas e saiam brigas novamente. Você aparta uma e aparecem mais 3.É necessário que todos tenham consciência e comecem a pensar mais em seus atos e responsabilidades além, claro de respeitar o próximo.

 GB: Boca de Ouro? Chegaram a participar de alguma temporada?

TP: Com tantos troféus ganhos em tantos festivais, na Boca de Ouro não tivemos o mesmo sucesso. Participamos em 93 na Armação de Prata com o 6×5 do Heman e perdemos para a Xumbo Grosso. Já em 99, soltamos um 10×7 que retratava índios. Acabamos perdendo para o Truffi de 28 metros do Oscar, solto pelos Naypes. Assim como nós, muita gente não concordou com o resultado e por isso, perdemos o interesse de participar deste campeonato.

 

GB: Um momento difícil?

TP: Foi o acidente com o Celso no resgate do 9×9 da Luar de Vila Sônia com a Armação da Amazônia em 1993. O balão caiu no Jardim Bonfiglioli, próximo a USP em cima de algumas casas. Um monte de gente subiu em um telhado que era bem fraquinho e o Celso ficou em cima de um muro. Chegou a polícia, o povo despencou com o telhado em cima de carro e o policial com um cassetete começou a bater em todo mundo. O Celso se assustou e caiu do muro, prendendo a perna numa lança do portão ficando de cabeça pra baixo. Eu (Tinão) e o Valdir ajudamos a tirar ele da lança, fizemos um torniquete com a guia do balão e o levamos para um hospital, pois a polícia não quis levá-lo. Chegamos ao PS de Pirituba, não havia condições de atendê-lo e na manhã, ele foi levado para o Hospital Jaraguá em Moema. Foi uma situação difícil, inesquecível e para a sorte dele, não teve nenhuma seqüela grave, apenas a fratura e o corte. Eu (Paulinho) fiquei um ano inteiro indo na casa do Celso todo santo dia para aplicar as injeções.

 

GB: Como veem os balões ecológicos? Acredita que os baloeiros vão se adaptar a essa nova prática?

TP: é uma nova prática, há alguns anos isso era loucura se alguém falasse sobre isso e até hoje muitos torcem o nariz, mas acredito que os festivais vão ajudar a melhorar a imagem do balão, trazer as famílias de volta, os baloeiros que pararam, mas o balão com fogo não vai acabar, isso temos certeza.

GB: Vocês vêm de uma geração sem tecnologia, sem conhecimento sobre técnicas e materiais e muitas turmas antigas e baloeiros antigos não concordam com o comércio de mercadorias e mão de obra muito comum nos dias de hoje. Como a Turma da Praça que, ao mesmo tempo veio dessa época onde tudo era feito por vocês, ao lado comercial do Tinão que por muitos anos viveu de cortar e vender balões?

TP: Olha, antigamente era mais romantismo, hoje é mais competição. Nem sempre por um troféu, mas pela satisfação em dizer que pode mais que o outro do seu lado. Antes emendávamos as folhas de Floor Post, fazíamos as lanterninhas, os castiçais, uma a uma na tesoura. Isso era a essência do balão, além claro da amizade. Pegávamos arame dos postes pra fazer bocas, sacos de estopa nas feiras. Hoje perdeu a graça. A molecada quer tudo pronto. Tudo pode ser comprado desde o corte, o projeto, a decoração, boca e afins. Se o cara quiser ele compra o balão pronto, só precisa encher e soltar. Por outro lado, o balão evoluiu. Hoje vemos balões cada vez mais perfeitos e quem não tem tempo e pode pagar, aproveita para comprar produtos ou contratar serviços ajudando muitas pessoas que vivem do balão.

 GB: Turmas que merecem ser lembradas pela turma da Praça?

TP: Dez de Ouros – pararam cedo, mas fizeram história com muitos balões de diversos tipos e ensinaram muita gente. A Emenda que também fez história com muitos balões marcantes e apesar dos problemas, tentam se manter e a Estrela do Ar, até hoje com seus grandes painéis comandados pelo grande Dorival .

 GB: Balões inesquecíveis para vocês?

TP: O 15×15 (89), o 10×7 da Amazônia (99), um 4×3 com armação do Cristo no Festival da União de 91. Assim que acabamos de encher o balão todos os outros balões foram abaixados deixando somente ele cheio no campo. Chegaram até a arremessar uma pedra furando o teto do balão. Eu nunca tinha visto isso. Também nos lembramos do 34 da Vagalume, 45 da Emenda, o 72 do Lelo e SM e do Pião 34m da Cortiço.

 GB: Que balão vocês fariam novamente?

TP: Faríamos uma réplica do 5×4 solto em 89 no festival de Campinas onde muita gente elogiou e se fôssemos reproduzi-lo, faríamos num balão de 20, 24 metros.

 

GB: A turma da Praça Aeroporto acabou?

TP: Não! Devido ao trabalho, não temos mais condições de nos reunir como antigamente, mas o Edu (apelidado pelo Tinão de Babinha) que cresceu na praça conosco, vira e mexe sempre organiza as confraternizações da turma seja no interior ou em SP e em conjunto com o Rafinha e o Daniel (10 anos já na turma) continuam mexendo e chamando a todos para as solturas. Em breve estaremos marcando uma confraternização para reunirmos toda a turma e soltarmos alguns balões que foram feitos há mais de 20 anos.

 GB: Pra finalizar, o que significa pra vocês, a palavra BALÃO?

TP: Balão é tudo! Amizade, companheirismo. Está no sangue. Crescemos vendo, pegando e soltando milhares de balões. Muitos dos fundadores se afastaram por motivos pessoais ou profissionais mas nunca deixaram de amar o balão. O balão é magia, nossa amizade nasceu por causa do balão. Passamos noites e dias em claro unidos em torno de uma paixão e até Ano Novo perdemos atrás das bolinhas vermelhas no céu. Se não fosse o balão não estávamos aqui hoje reunidos relembrando todas estas histórias. Balão para nós é uma família, sempre estaremos juntos soltando balões.

 GB: Agradecimentos:

TP: Há algumas semanas o Dinho nos convidou para essa entrevista e achei que seria impossível reunir em tão pouco tempo os quatro caras que deram início a turma: Xurupita, Chophen, Tinão e Totó, sendo que dois deles haviam se desligado do balão há 25 anos. Não foi uma tarefa árdua e num agradável churrasco na casa do Daniel conseguimos juntar o pessoal para a entrevista.

Valeu Dinho pela entrevista, parabéns pelo site e pela luta para a legalização do balão sem fogo junto às autoridades.

 GB: Gostaria de agradecer ao Edu e a toda a família Aeroporto pela recepção e por tudo que fizeram e fazem para ajudar a escrever a história do balão no Brasil. Conhecendo a história desta turma, além de nos emocionar e rir muito com suas aventuras, e causos do Tinão vimos uma grande família unida a quase 40 anos que mesmo com alguns de seus integrantes afastados dos balões há décadas, continuam amando e dando exemplo de que, independente do destino que seguimos, a amizade e companheirismo quando são sinceros nunca morrerão. Em nome dos baloeiros, muito obrigado a todos vocês turma da pracinha do aeroporto!

Confira o álbum de fotos da Turma da Praça Aeroporto:

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