Tadatoshi Katayama, o Tatí | Gazeta do Balão
Tadatoshi Katayama, o Tatí
Publicado em 12/01/2019 | 88142 Visualizações

Que balão é uma arte, nenhum de nós discute, não é mesmo? Assim como fazer balões é uma arte, uma outra arte, a fotografia
de balões, é um dom raro, dado a poucos de nós, assim como o amor em colecionar e montar nossas próprias enciclopédias eternizando  nossos feitos e de amigos.

Ele não foi o primeiro, não era o único, mas a importância deste homem na história do balão em São Paulo é imensa e eterna.
Através de sua loja, nos primeiros anos em sua própria casa na Vila Nova Manchester e depois em uma loja na Vila Carrão, bairros da Zona Leste de São Paulo. Lá, a história do balão em São Paulo nos anos de 1980 a 2000 foi contada a cada fim de semana.

Uma de suas primeiras fotos, um balão da Turma do Scorpions (antecessora da Turma do Mago) em 1983

Os primeiros relatos dizem que tudo começou em 1982 quando um amigo chamado Pitcho que pertencia a Turma do Carrão e fazia consertos em bancos de carros recebeu Tati em sua loja. Num bate papo, ele mostrou fotos de alguns balões pra ele, ele se interessou e começou a ir nas solturas e registrar seus primeiros balões das turmas do bairro e rapidamente, foi ficando conhecido pelo seu trabalho, afinal, naquela época, haviam poucos fotógrafos especializados em balões e a maioria, trabalhava para o Foto Wada, a primeira loja especializada em fotos de balões de São Paulo. Os primeiros balões eram pequenos, em sua maioria bojados e fogueteiros.

Tati posando com amigos da Turma do Carrão em 1983

Numa época onde os balões de armação dominavam as noites, este 5×5 da Turma dos Anjos, solto em Março de 1985, foi um dos primeiros balões de armação fotografados por ele:


Uma de suas fotos, do pião de 17m da Estrellar, Boca de Ouro em 1987, fez com que ele ficasse ainda mais “famoso” na boca dos baloeiros, afinal, ele mostrou uma visão diferente em relação ao padrão das fotos que, até então, os balógrafos faziam, sempre com fotos focando o balão.

Pode parecer engraçado olhando pelos dias de hoje onde os fotógrafos mostram tudo, sobem em morros, buscam as “fotos artísticas” que já estamos acostumados, mas naquela época, ninguém fotografava um balão em ângulos diferentes dos padrões.

A fama que conseguiu rapidamente com fotos de balões fez com que ele se interessasse ainda mais pelo assunto e decidiu começar a se especializar em tirar fotos de balões. Com o tempo, montou uma pequena loja no porão de casa, fez intercâmbios com outros lojistas e montou uma equipe de fotógrafos.

Através de sua equipe de grandes fotógrafos, de seu enorme acervo de fotos foi crescendo e conhecido pela qualidade e simpatia no atendimento, esse grande japonês nos informou, nos ajudou a conhecer as turmas, os balões, as histórias, amigos!Afinal, quantos de nós não cruzávamos a cidade,  íamos em sua loja, não só para comprar fotos, mas para saber os balões que tinham subido, os que iriam subir, encontrar e conhecer pessoas e claro,  passar horas folheando aquelas centenas de álbuns com uma caneta BIC azul e a famosa folhinha de pedidos de fotografias (foto ao lado) a tira colo?

Com o tempo, ele se tornou o principal ponto de encontro de baloeiros da zona leste. Seu negócio cresceu, a equipe de balógrafos também e no auge, chegou a ter mais de 300 álbuns com fotos de balões de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.

Por muitas vezes fui em sua loja com meu pai comprar fotos e, pra quem é apaixonado desde criança por isso, ali era um harém. Eram centenas de álbuns, todos numerados, organizados em prateleiras de aço com as fotos numeradas. E ele sabia onde estava qualquer balão. Bastava perguntar que ele fala com aquela voz inesquecível: “olha no álbum tal…”. E estava mesmo!

Nessa época eu e meu pai, o Rubinho da Maria Preta nos tornamos muito amigos dele e meu pai, já fotógrafo por hobby, foi convidado a ser um integrante de sua seleta equipe de balógrafos. Foi um orgulho para nós e, depois disso, começamos a ir e fotografar grandes balões dos anos 90 por tudo quanto é canto, paixão que tenho até hoje fotografando balões.

Dizem que ele nunca fez um balão. Certa vez lhe perguntaram se ele pertencia a alguma turma. Sempre ligado a Emenda por sua grande amizade com todos, ele nunca assumia o amor pela turma mais famosa do mundo do balão, mas sempre dizia que havia feito alguns balões com uma turma chamada Carrapeta Mágica, mas nunca tivemos acesso a alguma foto de um balão de sua turma. Parece até engraçado um especialista em fotos de balões não ter fotos de seus balões.

No fim dos anos 1990, além de fotos, começou a vender fitas VHS principalmente do Luiz Antonio, um dos primeiros cinegrafistas especializados em balões em São Paulo. Luiz também foi o primeiro a ter uma estrutura de produção de cópias em massa, chegando a fornecer quase 100 fitas por semana para que pudesse vender em sua loja. O sucesso de seu negócio foi tão grande que, de uma “simples” loja de fotos e posteres, se tornou uma loja de materiais para balões com tudo que se pode imaginar.

Com o acidente da Vilões do Céu em 2001, as investigações da Polícia Civil chegaram a ele, afinal, os fogos causadores daquela tragédia, fora comprados em sua loja. Foi uma época difícil, com processos, multas e pressão que fizeram com que ele fechasse sua loja e parasse com tudo.

Em 2007 o encontrei em uma das poucas aparições no meio baloeiro depois disso lá no Bar da Linguiça, um dos principais points de encontro de baloeiros de São Paulo na década passada e pude perceber o quanto ele tinha ficado chateado com tudo isso. Deixou bem claro que o acidente e as consequências disso o prejudicaram muito, tanto psicologicamente quanto financeiramente e que nunca mais voltaria a mexer com isso.

Truffi de 7m feito pela Emenda a pedido de Tati em homenagem a todos os balógrafos em 1990

Fato é que seu acervo, uma verdadeira relíquia que contava a história dos balões não só em São Paulo, mas no Brasil, pouco depois de fechar a loja, foi vendido a preço de banana para o Marco Antonio, criador dos álbuns de figurinhas Sétima Maravilha. Esse acervo todo ficou guardado num porão e dizem que, numa enchente, tudo se perdeu. Infelizmente.

Ao lado de Claudinho Alvarenga num churrasco da Emenda em 2001

Em 09 de Agosto de 2015, aos 75 anos, após anos de luta contra problemas de saúde, nosso querido Tati nos deixou, mas seu legado, seu amor pela fotografia de nossos balões, pela simpatia, pela excelência em tudo que fazia, será lembrada por gerações.
Se por todos estes anos, estas décadas o passado permanece vivo em nossas memórias, uma grande parcela de culpa é deste
homem e de sua equipe.

Recorte logotipo da Fuji Film feito em homenagem ao Tati em 1995

Se hoje com tanta tecnologia, tantos Smartphones, câmeras, drones e filmadoras a cada fim de semana é enorme, naquela época, ter um balógrafo do Tatí ou até ele mesmo em seu balão, era uma honra, um privilégio para poucos e a certeza de que teríamos um joguinho de fotos ou um poster de alta qualidade em nossas bancadas, além claro, de ter nosso trabalho exposto a todos, nos 4 cantos do mundo.

Pião de 27m em homenagem ao Tati solto pela Balomaniac’s em 2018

Uma foto pesada: Luizinho (Zeppelin Tatuapé), Sergio (Emenda), Bortoloto (Os Naypes), Adib (Penha), Paulada (Estrellar) e Tati.

Homenagem sem Identificação.

Obrigado Tatí por tudo que fez pelo mundo do balão, pela confiança em tantos de nós balógrafos e por ajudar a escrever e eternizar através de belas imagens, a história do mundo do balão em São Paulo.
Tem alguma dúvida, quer saber algo? Basta ligar 296-3030!

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