Toninho - Pantera | Gazeta do Balão
Toninho – Pantera
Publicado em 26/01/2019 | 110233 Visualizações

É com grande satisfação que estou de volta a GB escrevendo uma coluna e nessa volta, para homenagear um grande mestre do mundo do balão que nos deixou recentemente, o meu amigo Toninho da Turma da Pantera de Guarulhos.

Toninho sempre foi apaixonado por balões desde a sua adolescência lá nos anos de 1950. Nessa época, morava no Parque Novo Mundo, bairro na divisa de São Paulo com Guarulhos e esperava ansioso os meses de junho e julho para as festas juninas e claro, os balões. Nas noites de sábado ele ia até a região da várzea do rio Tietê que era um grande descampado coberto por brejos e áreas de mato próximo de onde morava e ali ficava resgatando os balões que vinham das zonas norte e leste de São Paulo. Diversas vezes pegava de 10 a 20 balões em uma única noite e ainda voltava pela manhã pra pegar os balões que caíram de madrugada ou que desciam apagados sem que ele tivesse visto. Os levava para casa e ia amontoando-os na garagem. Depois, o seu pai, o Sr. Bartolomeu, fazia as buchas e os dois os soltavam durante a semana.

Teve uma vez que ele saiu de casa escondido para ir atrás de balões. Seus pais acordaram de madrugada e não o encontraram no quarto. Preocupados, saíram atrás dele pelas ruas do bairro. Como sabiam que ele gostava muito de festas juninas, foram em praticamente todas e nada. Ninguém sabia dele, acabaram desistindo e voltaram pra casa. Quando o dia clareou, o sumido apareceu cheio de balões debaixo do braço. Além de apanhar dos pais, eles ainda rasgaram os balões e o deixaram uma semana de castigo.

Em 1968 ele se mudou para o bairro do Taboão em Guarulhos onde foi trabalhar em um açougue de uma senhora portuguesa. 2 anos depois, ele o comprou e mudou o nome para Casa de Carnes Brasil em homenagem ao tri-campeonato do Brasil na Copa do México, dias antes. No ano seguinte se casou com a Dona Cida, uma grande mulher que sempre o apoiou na sua paixão pelos balões e até o ajudava a confeccionar e soltar.

Açougue de Toninho nos anos 1970

Em 1974, por ironia do destino uma das suas irmãs começou a namorar um rapaz chamado Marcio sem saber que ele também gostava muito de balões. Depois que os dois se casaram, mudaram-se pro mesmo bairro e, rapidamente Toninho e Marcio começaram a fazer e correr atrás de balões juntos.

No feriado de 7 de setembro de 1982,  Toninho foi com sua família para Santos e na volta pra São Paulo, quando chegou na Av. Ricardo Jafet, final da Rodovia dos Imigrantes que liga o litoral a capital, se deparou com um balão no alto que mudaria sua trajetória no mundo do balão completamente. Era o 6×6 da Turma da Amizade solto no Pq. da Independência, próximo dalí que levou uma armação ilustrando Dom Pedro II:

6×6 – Amizade

Imediatamente, assim que viu o balão, parou o carro, desceu e ficou admirando aquele balão encantado e não acreditava no que seus olhos viam. Apesar de ter solto inúmeros balões, nunca tinha visto um balão como aquele e ficou imaginando e se perguntando como que se podiam fazer um painel tão perfeito e colocar debaixo de um balão? Ali ficou observando, encantado até o balão sumir.

No dia seguinte contou sobre o balão que havia visto para o Marcio e alguns amigos que não acreditaram muito e até acharam que ele estava inventando, mas seu cunhado disse que conhecia um rapaz que morava perto de seu trabalho no Tatuapé que também soltava esses tipos de balões de armação. Esse rapaz era o Luizinho da Turma Zeppelin.

Com o tempo, começaram a fazer contatos com alguns baloeiros além do Luizinho como o Dércio da turma Gasparzinho, o mesmo que tem a loja no Tatuapé até hoje e o Salvador da turma da Lembrança, uma das primeiras turmas de baloeiros de Guarulhos. Ambos indicaram a loja do Foto Wada no Ipiranga que era único local onde os baloeiros se reuniam na época. Eles foram até lá, viram e compraram, obviamente, dezenas de fotos de balões soltos em São Paulo e no Rio, assim como do balão da Amizade que Toninho tinha visto meses atrás. Saíram da loja encantados e decididos a aprender a fazer aqueles tipos de balões.

Com algumas informações que adquiriram com os novos amigos, fizeram um Caixa de 64 folhas de Floor Post que soltaram com uma pequena armação ilustrando o Coelhinho da Playboy. Pouco tempo depois, o Marcio comprou um 5×5 cortado de um rapaz no seu serviço e lá foram fechar esse balão no chão da casa de um amigo chamado Jorjão.

Decoraram o balão com desenhos da Pantera Cor de Rosa e após terminá-lo, veio a ideia de formar uma turma para a soltura desse balão, já que naquela época era moda ter uma turma e com eles não seria diferente. Cada um deu uma ideia de nome o Jorjão sugeriu:  “Por que não colocamos Turma da Pantera, o balão é decorado com o desenho dela…” Todos gostaram e aceitaram a sugestão, então, em Maio de 1983, surgia a turma da Pantera de Guarulhos, uma das mais importantes ou a mais importante turma Guarulhense de todos os tempos. Esse 5×5 foi solto pouco depois com bojo e uma gaiola de fogos feita pelo Marcio que tinha grande habilidade em fazer gaiolas de flechas. Após a soltura desse balão que foi acompanhado por centenas de pessoas a Pantera começou a ganhar muitos integrantes e rapidamente já tinha mais de 20 pessoas na turma e até conseguiram um grande salão que foi construída a primeira bancada da turma.

Toninho a esquerda segurando a boca e Marcio de camiseta vermelha num dos primeiros balões da turma

Após vários balões de pequeno porte, decidiram fazer um balão maior e compraram um 8×8 que, na época (1985), era considerado um gigante em Guarulhos e muitos o chamaram de doido. O balão foi feito e solto fogueteiro noturno e deu um grande show com as famosas gaiolas do Marcio.

Na foto a direita, Marcio (camisa azul e branco) mostrando as gaiolas do 8×8 expostas no quintal de casa para um amigo que fazia a feira (ao fundo)
5x1x3 – 1986

Foi também nessa época que o Toninho conseguiu um molde de um pião de 8m que foi cortado com mantas de Hulk Sulferine e solto no mesmo ano.

O pião da Turma da Pantera foi um dos primeiros piões carrapeta soltos em Guarulhos

Logo após a soltura desse balão, o molde se tornou uma febre entre os baloeiros da região e todos queria tirar uma cópia. Toninho me disse que até perdeu a conta de quantas vezes emprestou o molde para que fosse copiado.

Encontro de baloeiros de Guarulhos no fim dos anos 1980

Em 1987, a Pantera soltou um 7×7 com uma armação em homenagem ao 4º ano da turma. Foi um balão muito falado na época e sua soltura foi acompanhada por centenas de pessoas. Para muitos, foi a primeira soltura de um balão de armação visto presencialmente.

Sua soltura foi feita com maestria e o balão foi desfilando por Guarulhos atraindo várias turmas para seu resgate. Nesse mesmo ano, realizaram seu primeiro festival que contou com a presença de várias turmas de Guarulhos.

No ano seguinte, em 1988, para comemorar os 5 anos de turma, Toninho decidiu fazer um novo festival esse foi um sucesso. Muitas turmas de São Paulo participaram como: Alvarenga, Balões Kuka, Piratas do Espaço, Balão Mágico e Emenda.

Entrega dos troféus do Festival de 1988. Na foto a esquerda, de cabelos brancos, o Salvador, criador da Gazeta do Balão

Esse festival foi um marco na cidade e um dos melhores até hoje realizados.

Festival da Pantera de 1988

No mesmo ano, veio a tragédia na soltura de um 7x2x7 que era resgatado da Turma da Buca. O balão acabou abafando pelo excesso de sebo nas buchas, caiu numa fábrica e suas fogueteiras abriram lá dentro, causando um grande problema. Devido a isso, perderam sua bancada e muitos integrantes saíram da turma, inclusive o braço direito do Toninho, seu cunhado Marcio.

Depois de um tempo parado,  um rapaz chamado Wilson ofereceu sua casa para que fosse construída uma bancada e fosse a nova sede da turma. Ali, na minha opinião, foi a melhor fase da turma, pois nessa fase, vieram os balões mais marcantes da turma como o pião de 14m de 1989 que ele considerava o melhor balão solto pela turma:

Nessa época, Toninho começou a fazer filmagens de balões soltos em Guarulhos e começou a vender  cópias dessas fitas VHS em seu açougue junto com fotos que pegava de um amigo da zona oeste. Foi ai que seu açougue se tornou um ponto de encontro dos baloeiros aos finais de semana. Ele até brincava que vendia mais fitas e fotos do que carnes em seu açougue.

Logo depois soltaram um pião de 8m no Festival da Saudade de 1991 que ganhou o primeiro lugar:

Em 1992, o 7×7 com o tema da Criação do Mundo, balão muito falado na época por sua beleza, mesmo tendo problemas na soltura:

Um 5x1x5 Letreiro:

E o pião de 16m do Santo Antonio:

O belíssimo pião de 20m solto de Mairiporã, o Paraíso dos Balões em 1993:

Além disso, a Pantera também realizou outros festivais em parceria com outras turmas e, em 1995, a turma chega ao seu auge  soltando um o 10×10 vermelho fogueteiro diurno:

Um 5×5 com uma Armação do Pica Pau:

O 7x2x7 fogueteiro noturno:

e outro 7×7:

Após um desentendimento com o Wilson, Toninho muito chateado resolveu novamente dar um tempo na turma. Eles tinham um modelado de 14m pronto que seria solto com armação e Toninho passou esse balão para a turma Albatroz que o soltou com uma armação do Cinema Nacional em 1998:

2 anos depois, Toninho resolveu fazer um pião de 16m em homenagem a Portuguesa na qual era torcedor fanático. Com a ajuda do Marcelo Pirulão e alguns amigos, a Pantera estava de volta novamente após esse pião que foi solto no dia 01/05/2000 e foi um dos primeiros balões a serem mostrados ao vivo na TV quando caia no Cemitério São Judas Tadeu,  também conhecido como Cemitério do Picanço em Guarulhos:

Nessa terceira fase da turma, Toninho junto com o Marcelo Pirulão e o Roger soltaram outros balões de destaque como  o 9x3x9 fogueteiro diurno:


Um Lapidado de 14m em homenagem a esposa do Toninho, a Dona Cida em 2001:

O pião de 13m em 2004:

E um 16m fogueteiro diurno em 2006:

Para comemorar os 24 anos da turma em 2007, Toninho aproveitou uma bobina de Hulk Finlandês de 28 gramas e cortou um Modelado de 22m que seria fogueteiro diurno. No dia da soltura, o Toninho acabou se perdendo no caminho e não chegou no sítio a tempo e mesmo assim, o balão foi solto deixando-o com muita raiva:

Depois soltaram outros balões como o pião de 16m da Copa de 2014:

Nesse mesmo ano, infelizmente Toninho descobriu que estava com um Câncer grave no estômago e vendeu o açougue para se dedicar melhor ao tratamento. Nessa fase, passou a dedicar mais aos balões. Não perdia uma reunião, festa ou encontro de baloeiros. Também fazia questão de ir nas solturas principalmente dos balões de armação, sua grande paixão.

Em 2016 decidiu fazer um pião de 14m homenageando seu neto mais novo que tive o grande privilegio de participar e ajudá-lo. Este seria o último balão que confeccionou:

Já em 2017 a Turma da Pantera soltou o belíssimo modelado de 28m, o maior balão da turma e também o último com Toninho em vida.

Neste balão presenciei umas das cenas mais emocionantes em meus 25 anos de balão. Em uma das guias ele estava muito emocionado, em lágrimas enquanto guiava o balão.

Após o balão subir, Toninho se afastou de todos e num canto isolado e muito emocionado, assistiu as aberturas das fogueteiras do balão, parecia que estava se despedindo do mundo do balão na qual fez parte de toda a sua vida e era o que ele mais amava.

Nô (Anjos da Noite), Toninho, Adib (Penha), eu e o sobrinho do Adib em 2015

Em 02 de junho de 2018, aos 69 anos, curiosamente no mês que mais amava e no ano de Copa do Mundo, Toninho partiu. Com certeza, sua passagem nos deixou muitos ensinamentos e sempre será lembrado como um dos grandes mestres da história do balão não só em Guarulhos, mas em todo o mundo.

Para finalizar, gostaria de deixar um agradecimento especial a Dona Cida, esposa do Toninho que nos ajudou muito com informações para montarmos esta homenagem e espero que todos tenham gostado da história do mestre Toninho da Pantera.

Abraços a todos.
Cesar América

Gostou? Curta e Compartilha!
  • 403
    Shares

Mande seu Recado:

Copyright © 2006 / 2019 - Gazeta do Balão | Todos os Direitos Reservados - Permitida a reprodução com citação da fonte
error: Não copie, compartilhe!