Turma Campo Grande – RJ | Gazeta do Balão

Nesta edição, a Gazeta do Balão traz uma entrevista muito legal com umas das mais importantes turmas de baloeiros do Rio de Janeiro que marcou seu espaço na história com grandes armações e inesquecíveis festivais que reuniam multidões nas décadas de 80 e 90. TCG – Turma de Campo Grande:

GB: Como foi o início de vocês no mundo do balão?

TCG: Tudo começou com o Wagner, que além de fundador, foi precursor e um dos grandes nomes da história do mundo do balão por levar o bairro de Campo Grande e toda a zona Oeste do Rio de Janeiro a se tornar referência em balões no Rio. No meio dos anos 70, ele veio do bairro de Abolição, um dos grandes focos e escola de grandes turmas de baloeiros e começou a frequentar Campo Grande, vindo posteriormente a trabalhar, casar e morar no bairro. A princípio fundou a turma WM e já quase no final dos anos 70, fundou a TCG.

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GB: Quais foram os primeiros balões?

TCG: Começamos como todas as primeiras turmas do passado com balões de médio porte aprendendo, se informando e respeitando a todos, pois também havia uma preocupação em relação a segurança não só com a turma, mas com as pessoas em nosso bairro e aos poucos a TCG foi buscando a sua identidade e escolheu os balões de painel e com isso, foi muito bom, pois com a saída de alguns componentes foram fundadas várias turmas em nossa região e ajudando a divulgar, crescer e valorizar a Zona Oeste e seus balões.

GB – Quais os principais balões soltos pela turma?

TCG: Tivemos vários, mas todos os balões foram importantes seja qual for a categoria. Em 1984, soltamos dois 9×9 na mesma noite e também em 1987 dois 6x1x6 e em 1989 um 9×9 e um 8×8 também na mesma noite, que temporadas!

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GB: Entre tantas histórias, houve um momento difícil na turma?

TCG: No 9×9 do Leão da Metro (1987). Eu (Andre) e o Alcenir passamos grande parte do tempo juntos fazendo o balão. Passamos uma semana inteira montando o painel no Clube dos Aliados e, no dia de soltar o balão, já a tarde quando terminamos de montar tudo, fomos as nossas casas tomar banho. Seguimos na frente de carro e o Alcenir foi de moto. Voltamos para o campo, enchemos o balão, lanternamos o bojo e na hora de soltar cada um pegou sua guia e não parávamos de chamar o Alcenir, pois uma das guias era dele. Ele não apareceu, ninguém o encontrava e mesmo assim, o balão subiu, deu tudo certo, não queimou nenhuma lanterna foi show a sua subida. Comemoramos muito e já na madrugada, veio a péssima notícia do falecimento do Alcenir num acidente de moto naquela noite. Não sabíamos de foi na hora que ia pra casa ou para o campo onde o esperávamos para soltar o balão. Foi muito difícil para turma, familiares e amigos, pois passamos uma semana juntos. Estamos até hoje juntos na lembrança e no coração, pois Alcenir foi um grande homem, baloeiro e amigo.

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GB: Muitas turmas que ganham destaque com seus trabalhos, em muitos casos recebem muitas críticas, principalmente quando falham. Como lidam com essas críticas?

TCG: Todas as críticas são baseadas em opiniões e avaliações de cada um. Perdemos 7 balões em 105 balões soltos e respeitamos. Mas desde o momento que mexe com o gosto e escolha da turma ou pessoa que faz e solta balão é falta de respeito, pois gosto não é defeito e tem que ter respeito. Balão só acontece com quem faz e aqui no Rio ta cheio de baloeiro sem nome e história.

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GB: Você acha, não digo vocês, mas no geral, muitos se preocupam mais em fazer bonito do que fazer direito?

TCG: Ótima pergunta! Pois muitos se preocupam em beleza e esquecem da segurança. Eu em algumas reuniões e cartas coloquei uns bordões que falam dos seis elementos do balão:

Organização;

Preparação;

Competência;

Segurança;

Responsabilidade e o principal e último:

Humildade.

Somando – os você vai chegar ao sucesso e espetáculo garantido.

GB: Existe alguma preferência em seus balões? Porque?

TCG: Não. Principalmente agora nesta época. Pois os materiais estão muito caros e as turmas têm que variar em categorias, pode ver que algumas turmas pararam suas atividades por vários motivos. A referência da TCG vai ser sempre os painéis, este ano de 2014, soltamos nosso modelado de 10 metros com o tema “Seu Madruga”  juntos com a turma Arte Cor (Grupo Artesão), foi nosso 29º painel de história em 36 anos. Que gostoso é voltar a soltar painel!

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GB: Vocês, junto com a turma da Amizade ficaram marcados pelos grandes festivais de 1980 a 1995. De onde nasceu o interesse em realizar estes festivais?

TCG:  Na época existiam grandes turmas no Rio de Janeiro que soltavam grandes balões de painel e concorriam as Bocas de Ouro e eram consideradas grandes e importantes. Os festivais foram feitos como palco para não só as grandes turmas da época, mas todas que até hoje soltam seus balões, de pequenas às grandes e temos muito orgulho em poder ajudar a montar e organizar com todas a logística, grandes festivais, como por exemplo: Grupo Baluarte, Grupo Artesão, Turma da Cruz, Asa Branca, Mendanha, Sepetiba, Deserto, Ploc, Bangu Rio, Faisca (Macalé), Fada e Turma do Céu. Não posso deixar de falar, não desmerecendo os outros festivais, e também  da turma da Amizade que de 1985 a 1991 ajudamos a organizar com toda a logística. O objetivo dos festivais era dar oportunidade as turmas de mostrar seus trabalhos com seus balões. Obrigado a todos que nos ajudaram, com grande sucesso e humildade.

GB – De todos, qual foi o mais marcante?

TCG: Foram vários, sendo que todos foram importantes. O primeiro em 1980, balões de armações inesquecíveis como da Coruja do Tingui, Casarão de Bangu, Asa Branca, Olímpica, Chupeta e Carreira. Também o de 1987 e 1988 nos Aliados e 1991 e 1992 no Comari com a presença maciça de Curitiba e São Paulo vindo em 17 ônibus e na oportunidade, foi apresentado através da TCG e de Itamar (irmão do Ivo) a toda a comunidade baloeira de Curitiba. Que festivais! Que pessoas!

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GB – Como viram a chegada da Lei que proibiu os balões em 1998?

TCG: Amigos, na verdade foi uma lei forçada politicamente, pois alguns órgãos da sociedade pareciam ameaçados pela nossa arte. Foi injusto porque ninguém nos procurou para saber o que é o balão e o que tínhamos por trás. Todos sabemos que o balão engloba muita coisa, é uma tradição centenária no Brasil e temos muitos problemas como qualquer atividade, prática ou instituição.

GB – Como veem os balões de hoje em relação aos balões do passado?

TCG: As cores e os desenhos são muito mais perfeitos, mas o que nos preocupa é o gigantismo, pois mexe um pouco com a segurança. O gigantismo me preocupa muito. Em 1983 ajudamos a turma da Harmonia e o Gabriel a confeccionar o painel do pião de 54 metros (Rei dos Reis). Íamos para a casa do Élcio da turma da União em Del Castilho. Ao lado da casa dele tinha um terreno e fazíamos a armação em partes e depois de alguns dias de tudo pronto levamos para sitio do Jorge Barbudo no Km 40 em Seropédica.
Em 1988 fomos convidados pelo Ivo Patrocínio e a turma Cachambi a participar da confecção e soltura do pião de 56m. Depois de tudo que aconteceu, depois de 3 anos,  junto com turma do Bola ajudamos a soltar o balão. Caramba! Como foi bom aprender e soltar balões com essas turmas e pessoas. Vamos pensar!

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GB – Já que estamos falando de passado, de  todas as técnicas desenvolvidas desde a década de 80 tanto na forma de fazer quanto em soltar um balão, em sua opinião, qual foi a mais importante?

TCG: Com certeza a malha de painel, poxa agora você faz a armação na bancada e prepara e solta no mesmo dia. Se o tempo ficar ruim, desmonta e leva pra casa. Antigamente, as malhas eram feitas no campo, no dia da soltura e se o tempo ficar ruim. tinha que ficar lá e, em caso de chuva, perdíamos todo o trabalho.

GB – Participam de Resgates? Comente alguns que resgataram ou resgates que merecem ser lembrados.

TCG: Falar de resgates é muito polêmico. Na década de 70, 80 e 90 fomos a muitos resgates, haviam conflitos e disputas, mas hoje acho muita covardia o vandalismo, a invasão que é crime e a falta de respeito. A maioria dos resgates tem causados problemas aqui no Rio e nos atrapalham na hora de buscar nossos direitos, temos que saber que para termos diretos temos que ter deveres, vamos pensar um pouco antes de bater, ofender, agredir, invadir e destruir patrimônios públicos e particulares.

GB – Cite alguns balões de outras turmas que são inesquecíveis para vocês.

TCG: São muitos. Acompanhei os anos de ouro das armações nos anos 70, 80 e 90. Balões inesquecíveis de turmas como Cachambi, Méier, Amizade, Cometa, Realengo, Arte Real, Casarão, Ouro Preto, Neblina, Jacarepaguá, Colosso, Rede, Harmonia, Nelson Dentista, Carrossel, União e por ai vai. Fica difícil falar de balões. São muitos que vem na cabeça.

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GB: Uma história engraçada…

TCG: Na véspera de entrega de troféu da TCG no ano de 1986, o Sérgio Trici chegou cedo à Bancada e pegou os troféus e começou a consertar alguns troféus de destaque que, pareciam estar tortos. Quando o Wagner chegou tínhamos feito tudo ele olhou os troféus e perguntou: “Quem fez isso nos troféus?” Eu e o Sergio falamos que nós tínhamos os consertado. Ele começou a rir e disse que eles eram tortos mesmo.

GB – Boca de Ouro… Amada e odiada. Qual a opinião de vocês sobre esse assunto?

TCG: Falar de Boca de Ouro (pensativo) Sou polêmico! Sou de uma época que perder uma Boca de Ouro era orgulho, como a TCG perdeu para Cachambi, para a Méier, a Amizade, a União, Colosso, Cometa, Realengo, Arte Real e etc.. Mas também ganhamos desses caras. Caramba! Era gostoso saber ganhar e aprender perdendo. Naquela época os quesitos eram balão, decoração e principalmente o impacto que o painel dava no alto. Tinham umas discórdias, mas nem sempre vencia o mais bonito, mas o que dava certo, balão, soltura e espetáculo. Hoje os quesitos são esses, principalmente no Rio: Camisa do balão, churrasco, reunião de panelas e amigos. Essas pessoas que fazem isso estão entrando para a história do balão como muitos vilões, histórias de injustiça, cara de pau e falta de respeito e as Bocas de Ouro que esses recebem vão enferrujar junto com as suas histórias, mas os troféus que a TCG, Cometa, Amizade, Realengo, Cachambi, Colosso, Arte Real, Méier, União e Ouro Preto essas não enferrujam, pois elas têm uma vida…, uma história…, uma memória.

GB: Teve alguma Boca de Ouro que não ganharam e acreditam que mereciam?

TCG: Foram várias, mas no ano de 2012 soltamos uma careca de 16m taqueada desenhada junto com a turma Revelação, o balão ficou 26 minutos no alto e resgatamos todos juntos de Campo Grande e soltamos uma semana depois, no dia 12 de Janeiro de 2012. No dia 5 de Março de 2013 fomos para entrega de troféu da Boca de Ouro, pois tínhamos sido indicados junto com mais duas turmas e o nosso balão era o único desenhado, sem desrespeitar os balões concorrentes, e quando saiu o resultado,  confirmou o que  já vinha acontecendo nos anos anteriores. Premiaram outra turma e não a nossa. Não temos nada contra a turma premiada, mas tinham em mãos a oportunidade de mudar a história de entrega de Boca de Ouro e considero agora aqui no Rio que temos o troféu Amigos de Ouro.

GB: No seu ponto de vista, o que a Boca de Ouro traz de mais importante para o mundo dos balões?

TCG: O que deixamos é que a Boca de Ouro como qualquer coisa material não levamos para o túmulo, caixão não tem gaveta, caixão só tem tampa e alça e muitos serão sepultados com lembranças injustas e incorretas como muitos vilões que na história do mundo se foram. Vou dar exemplo que Boca de Ouro não faz história, aqui nomes de turmas que não ganharam Boca de Ouro e fazem parte da história do balão, exemplo: Pirâmide, Jacarepaguá, Harmonia, Neblina, Cisne, Guadalupe, Madureira, Céu, etc.

GB: E de negativo?

TCG: Negativo? Tudo: inimizade e falta de coletividade em nosso meio, pois o que precisamos é nos unirmos e não nos deixar nos levar por troféus.

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GB – Qual o nível de segurança dos balões hoje de 0 à 10 e por quê?

TCG: Nota 8. Não vou dar 10 porque 10 só JESUS CRISTO. Buscamos os melhores papeis, formas de cintar e confeccionar os balões, mas esquecemo que colocamos em baixo. Este item que devemos calcular e aprimorar.

GB – 3 turmas ou pessoas que merecem ser lembradas pela TCG:

TCG: Caramba, que pergunta! É complicado falar de pessoas e turmas, mas pessoa, tem que falar do Wagner fundador da TCG. Estou na TCG desde os anos 70 e tivemos muitos componentes em toda geração da TCG. Pessoas que nos ajudaram a chegar aqui e para completar e homenagear a todos falo assim: “Ouvia falar, conhecemos, convivemos, aprendemos, fizemos e soltamos balões com todas as turmas e pessoas em todos os anos”.

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GB – Como veem os balões ecológicos? Acreditam que um dia poderão ser regulamentados e os baloeiros se adaptariam a essa nova prática?

TCG: Uma benção! Acreditar sim, como já falei, nós nos organizamos e temos que nos unir não só a esta mudança e sim mostrar a todos da sociedade que temos diretos ao nosso espaço e tem espaço para todos. Quando foi aprovada a lei do balão ecológico, nos trouxe justiça e um pouco de liberdade. Temos muito que melhorar e devemos deixar de lado o particular e sim o coletivo.

GB – O que você acha que poderíamos fazer para mudar a imagem do baloeiro e do balão?

TCG: Acho que não com gestos políticos, mas com atitudes sociais e culturais e devemos mostrar mais a sociedade as nossas culturas não só quando abrimos nossa janela e vemos os balões no céu.

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GB: Onde você acha que os baloeiros mais erram?

TCG: Erramos em ficarmos no individualismo próprio e o dia que passarmos a sermos coletivos vamos mudar a história do balão em nosso País, pois em outros Países que já tem balão a história é outra.

GB – Pra finalizar, o que significa pra vocês, a palavra BALÃO?

TCG: Balão para nós? Uma paixão… Uma vida… Uma história… Uma memória!

GB – Faça seus agradecimentos.

TCG: Agradeço a Deus e a interseção dos Santos e de toda a minha família baloeira, Robson, Marcinho, Jardel, Ricardo, Neguinho e Jairinho, também não podemos esquecer dos amigos Paulistas e Curitibanos e também ao Rio de Janeiro, porque se fomos e somos alguma coisa foi através de todos. Obrigado Gazeta do Balão por esta oportunidade de contar um pouco não só da minha história, mas da história de uma turma que colabora com a arte de fazer e soltar balões.

Obrigado TCG RIO.

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