Edição 05 - Turma da Lua | Gazeta do Balão
Edição 05 – Turma da Lua
Publicado em 08/10/2018 | 415381 Visualizações

Publicada na edição 05 de Dezembro de 1990

Turma da Lua – São Bernardo do Campo – SP

Na quinta edição da GB, aproveitando que estamos em dezembro, lembramos que esse mês é mês de festa, e festa lembra a Turma da Lua de São Bernardo do Campo:

GB – Como nasceu a turma, data de fundação, cores, componentes, etc?

TL: Todos os fundadores da Turma da Lua, tradicionalmente, soltavam seus balões nas festas juninas com seus familiares e amigos. Na década de 70 alguns já se conheciam, porém “cada um na sua”. No ano de 1980 com a realização do 1° festival de balões em São Paulo da Turma da Amizade (SP/RJ), na Ricardo Jafet no Ipiranga, ficamos sabendo e resolvemos participar, cada qual com seu balão individualmente. A partir desse dia (30/08/1980) nascia a Turma da Lua, em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, num bar pertencente a um dos seu fundadores, o saudoso Neno. Além dele foram fundadores, eu (Odair), Sergio e o Gilberto. Desses quatro, somente eu e o Sergio continuamos na turma. Atualmente contamos com o Edi, Dinho, Perereca, e o Cláudio que entrou em 1987. Nossas cores são azul e branco.

GB – Os primeiros balões?

TL – Os primeiros balões principalmente os lançados no festival da Amizade, foram muito importantes para a formação da turma. O Pião Estrela, o balão Dado, o Mixirica do Neno – o primeiro balão de São Paulo a levar lanternas decoradas, bolas, etc. Coletivamente, o primeiro balão não eu certo. Era um 3X3 letreiro “LUA”. Na semana seguinte fizemos outro igualzinho e lançamos com sucesso. Em 1981 lançamos um 6X6 armação “LENNON” o primeiro da série em São Paulo, causando grande impacto na época por ser o mês e ano do primeiro aniversário de sua morte. Em 1982, lançamos o primeiro pião “grande” de São Paulo. Era um pião de 11m com luas em aspiral, levando flâmulas e fogos. Nesse mesmo ano, lançamos a nossa melhor armação: “Chaplin”. Um balão em preto e branco incompreendido na época, pois ninguém entendeu nada, os quadros eram fotogramas de cinema.

GB – Os balões mais importantes na história da turma?

TL – O balão mais importante da turma sem dúvida, o Mont Golfier da roda gigante lançado em 1984. A história é a seguinte: em 1983 ouve uma divisão na turma e nessa, ficamos sem bancada. Todo mundo pensou que a Turma da Lua tinha acabado. Cortei esse Golfier e montei o esquema da decoração meio que na raça. Na seqüência, com muito sacrifício conseguimos montar uma bancada na casa do Edi em São Caetano. Levei tudo para amoçada ver e apreciar. Todo mundo opinou e participou ativamente, ai deu no que deu: um clássico na categoria até hoje. O primeiro balão em São Paulo a levar motor, bateria de moto etc. Para quem não sabe a roda gigante girava bem como suas cadeirinhas e bonecos. Deu até crônica do Lourenço Diaféria em sua coluna no Jornal da tarde na época. Marcante também foi esse pião de 24m, que foi lançado este ano (1990). Um balão de 7 anos de história e muita dedicação de todos da turma. Um grande conjunto digno de 10 anos.

GB – Gigantismos e os de menor porte, qual é a sua posição?

TL – A palavra gigantismo é um pouco incoerente no mundo dos balões de hoje. Tudo é gigante se compararmos com os balões que fazíamos antigamente, quando um balão de 64 folhas era considerado um monstro. Hoje penso o seguinte: sou contra o “gigantismo exagerado”. Explico: é aquele sem esquema, sem retaguarda, sem estrutura, sem conhecimento, sem local adequado e principalmente, sem obedecer os limites de resistência do papel. E logicamente se a turma não tiver tradição, experiência ou seja, conhecer a fundo o metiê. Coisa que hoje em dia acontece aos montes. Na verdade se olharmos para trás, parando para pensar, vemos que a maioria dos balões exagerados (digamos acima de 20m.) salvo raríssimas exceções, todos têm apresentados um tipo de problema. Nunca sobem completos. É a bandeira que cai, rasga, quebra a antena, sobe e cai, sobe só o papel, estoura, sobe sem lanternagem, o fogueteiro abre no chão, emfim, sempre aparece algum tipo de problema, e o pior: quase sempre a turma acaba… Sou a favor do balão seja qual for o tipo de papel, desde que apresente criação e arte. Agora, o papel de seda é fundamental, assim como os balões tradicionais. Sem essa base, sem a continuidade dessa tradição, fatalmente morrerá, é só uma questão de tempo.

GB – Algum caso pitoresco na história da turma?

TL – São tantos, porém vou narrar um do início. Nossa primeira sede foi num bar, e aí, todos os dias, era aquela agonia para a moçada se livrar dos “bebuns”, juntar as mesas e fechar as portas para dar início a confecção do balão. Era um tal de varrer o bar, limpar o balcão, as mesas, etc. Isso tudo com fregueses no recinto. Com isso, o Neno, na época perdeu muito sua freguesia e logicamente dinheiro. Mas naquele tempo, a euforia e o prazer era maior e superava o prejuízo…

GB – Resgates?

TL – A Turma da Lua nunca participou de resgate de balões, digo, vandalismo de balões. Quando vamos em algum, vamos para ver o que acontece, e quase sempre não gostamos do que vemos. Hoje, creio que é o ponto mais negativo para nós baloeiros. Esse vandalismo, sem dúvida, nem Freud explicaria. O pior, acho eu, é um mal sem cura, infelizmente. Agora, não podemos desistir de criticar e de apontar culpados, doa a quem doer.

GB – A Turma da Lua realizou 11 festivais. Fale um pouco sobre esses eventos, e qual a importância dos mesmos para os balões e as turmas?

TL – Desde que a Turma da Lua participou do 1º Festival em 1980, resolvi continuar, já que o Paulinho não iria mais realizar o evento. A minha ideia foi sempre reunir o maior número de pessoas interessadas em aprender e, creio que consegui, o movimento de ” volta do balão”. Foi o que fiz em 81, juntamente com a Turma dez de Ouros. Um festival de armações e fogueteiros separadamente. Foi sem dúvida, um dos maiores eventos em termos de público, até hoje realizados em São Paulo. Deu até Brucutu e bombas de gás lacrimogênio na Ricardo Jafet, pois seu fluxo ficou paralisado nos dois sentidos. Aliás, a avenida virou um enorme estacionamento. Deu Gil Gomes, revistas, jornais, etc. Definitivamente, a coisa se espalhou por todos os cantos de São Paulo e pela Exposição de Balões na Casa das Retortas. Em 1982, o 2º festival, sendo o 1º com balões de pequeno porte. Em 1983, o 1º festival noturno e diurno, mas somente a Turma da Lua soltou balões. Enfim, festival é escola, é nascimento de turmas. É onde as crianças pegam gosto pelos balões, aprendendo técnicas novas, coisas que, por uma questão de progresso, ela não tem mais, já que festa junina de hoje, com raras exceções, aboliu a prática de soltar balões. Agora tem o seguinte: Os festivais de hoje são uma droga (inclusive os meus). São muitos e não existe esquema, calendário, estrutura, e ninguém respeita ninguém. No fim, todos saem prejudicados e, principalmente, o público. A arte então, nem se fala. Outro detalhe que vem ocorrendo com frequência é o seguinte: a moçada vem com uns balõezinhos brancos, pensando somente em troféu de participação. Não trabalha mais o balão para mostrar arte, criatividade. Aliás, é por isso e por outras coisas, que paro por aqui com minha carreira de festivais. As faladas “grandes turmas”, essas então nem aparecem para prestigiar, nos vários que ocorrem ou ocorreram em SP. Preferem ficar 1 ou 2 anos em seus balões gigantes, e dizem que festivais não estão com nada, que balão pequeno está por fora.

GB – Boca de Ouro em São Paulo. Qual sua opinião?

TL – Tivemos a sorte de sermos uma das primeiras turmas de SP, com uma visão mais ampla que as demais da época, para os lances do meio: jornal, balões, eventos, etc. Quanto ao troféu Boca de Ouro, não poderia ser diferente. A Boca de Ouro, propriamente dita, nasceu em 1983, num agito meu junto ao Foto Wada (Ipiranga) e o Special Foto (São Caetano do Sul). No fim, o Wada através de seus proprietários e parentes, confeccionaram a Boca como o Paulinho e os outros na retaguarda. Não sei se fiz bem ou mal, mas sei que se pudesse voltar ao tempo, faria novamente. Não sou frontalmente contra, o problema é que está causando muita polêmica e confusões. Aliás, logo na primeira causou tudo isso. Todos devem lembrar do balão da Alice que perdeu para o balão do Corinthians da Dez de Ouros. Foi pura armação. Agora, não há dúvida que o nível dos balões melhorou, porém no final… O negócio é pensar no prazer que o balão dá, os troféus são consequências naturais que um trabalho fatalmente atingirá.
Um fato histórico: Em 1981, para quem não sabe, a T. da Lua foi “Boca de Ouro” com um balão 4×4 armação “Chuga-Luga na Lua” , e ganhou também o fogueteiro com um 3×3 armado pelo saudoso Neno, que há mais de 30 anos atrás já lançava balões com fogos. Os troféus foram ofertados pelos organizadores da 1ª Exposição de São Paulo na Casa das Retortas, da qual também participamos. Era uma obra de arte, um “Fragile” de autoria de Marcelo Mietche, famoso artista plástico.

GB – A pergunta é agora para o redator-chefe do “Jornal do Balão”. valeram 10 anos de luta?

TL – Sempre tive vocação para fazer jornal. Isso foi no colégio, faculdade. Cheguei até prestar vestibular. Bem, o fato é que o “Jornal do Balão” nasceu na Casa das Retortas, durante a Exposição de Balões de 1981. Foi uma brincadeira que deu certo, possivelmente por ser o primeiro de SP. Ainda gosto e acho importante, pois é a única forma de registrarmos a história do nosso costume, hobby, sei lá, registrando. E através disso, passando experiências, sugestões, críticas construtivas, etc. É o registro do nosso universo particular. Agora, confesso uma coisa: Todos os jornais, inclusive o meu, devem passar por uma reciclagem. Todos estão muito repetitivos. Devem procurar criar coisas, senão fatalmente irá acontecer como vem acontecendo com os festivais: uma chatice sem limites. Agora sem dúvidas, valeu a pena pois os frutos estão aí.

GB – Mensagem final:

TL – Que a “moçada” mais antiga tente ensinar os mais jovens a fazer e lançar balões como antigamente, por puro prazer. Que esqueçam do gigantismo exagerado ou de cargas exageradas. Que esqueçam das competições, ou seja, deixem a coisa fluir naturalmente. Que pensem na segurança, respeitem os horários dos outros. Esse lance de soltar balões de madrugada ou em dias de semana após as 22:00. Cada vez mais está denigrindo a nossa imagem, que já não é nada boa. Que se disciplinem nos resgates, que voltem os pequenos balões noturnos com armação, fogos ou letreiros, para que os bate-papos nas rodas também voltem. Que o espírito de coleguismo também volte nos lançamentos, que as turmas voltem à lançar seus balões mais cedo e nos seus próprios bairros. Se quiserem, vão conseguir.

Esta entrevista foi realizada no mês de novembro de 1990, na sede da Turma.

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