Olá amigos! Tão antigos quantos os marias-pretas das festas juninas, os balões de recorte sempre encantam a todos nós pela criatividade gasta em desenvolvê-los.
Desde as primeiras décadas do século passado aos dias de hoje, sempre encontramos balões retratando objetos, pessoas, animais, veículos, personalidades e muitas outras coisas. Nas décadas de 70 e 80, principalmente em festivais, sempre havia troféus para premiar os balões mais criativos e, na Boca de Ouro, somente no final da década de 90 os balões de recorte apareceram.
Entre tantos artistas que se destacaram com este tipo de balão, pra quem conhece a história, uma turma é unanimidade no assunto balões de recorte: A turma do Cristo de Bangú, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro que ficou marcada na história por dezenas de criações inesquecíveis e, muitas delas, destaques em todos os álbuns de figurinhas e festivais da década de 80.

GB: Como foi o início de vocês no mundo do balão?
TC: Para mim (Conceição), foi olhar para o céu, não saber o que era balão ou estrela e cantar: “ Cai,cai balão, cai,cai balão… aqui na minha mão”. Para o Sidney foi ficar olhando o tio riscar a parede da casa, colocar um bambu no caibro e pendurar linhas, ajudar a levar “canecas” de papel feitas com garrafas de cerveja como molde e entregar ao tio que lá em cima da escada, as encostava na parede. O tio ia amarrando as canecas naquelas linhas e formando desenhos. Mesmo sem entender, ele se apaixonou por aquilo e ficava esperando a noite chegar para a família se reunir e ajudar segurando “os desenhos” enquanto o tio e mais outros enchiam o balão com uma tocha de fogo e, depois de cheio, colocavam a bola de algodão embebida em querosene como bucha. O balão era feito de papel colado com mingau de farinha de trigo ou com arroz bem cozido. passado com dedo e reforçado com barbante de padaria. E ele subia, era mais um sobre nossas cabecinhas. E eles flutuavam sobre as casas de sapê e os morros e matas. Só desciam quando não tinha mais fogo, apagadinhos . Vizinha de Sidney, nossa infância foi com os balões feitos pela minha mãe e meu tio. Minha mãe adorava fazer o Santos Dumont (Zeppelim) com fitinhas nas pontas. Sua bucha era igual: bola de algodão e querosene. Isto tudo em 1958. Eu com 8 anos e Sidney com 13.

GB: Quais foram os primeiros balões de recorte?
TC: O primeiro recorte foi feito no corredor da minha casa em 1972 com apoio da minha mãe. Foi um Taxi Fusca de 4 portas, a sensação do momento aqui no Rio. Fizemos muita cola de farinha de trigo para usar neste balão. Nossos primeiros balões foram soltos na frente das nossas casas. Quando íamos soltar algum balão, muita gente ficava esperando e até a Joaninha (Viatura da Polícia) fechava a rua e os policiais ajudavam segurando o balão.

GB: Porque escolheram Turma do Cristo?

TC: O nome Turma do Cristo foi colocado pelos muitos seguidores que não sabendo nossos nomes, nos identificaram após varias tentativas de soltar a armação do Cristo Redentor e a cada dia surgir um problema até que um dia deu e ele subiu lindo.

GB: De onde nasceu a paixão com balões de recorte?
TC: Ao perceber os olhares diferentes quanto ao recorte, adultos e crianças gostam muito.

GB: Existe alguma técnica para criar estes balões?
TC: Não. É só desenhar, ampliar, cortar e colar! O Sidney não gosta de moldes para fazer balão de recorte. Ele sempre preferiu desenhar, ampliar seguindo a escala. Depois cola as folhas de seda , cortamos e colamos. Já o bojo, ele calcula olhando para a escala e a bucha é feita “no olho”, porém sempre acertou. Eu ajudo “consertando” os desenhos.

GB: De onde tiravam inspiração para criar estes balões?
TC: As diferentes inspirações vieram e vem de lugares e situações muitas vezes imaginárias, como exemplo, de assuntos do momento ou até do surrealismo que o nosso querido artista plástico Luis Magrinho, também da Turma do Cristo gosta muito.

GB: Quais os principais balões soltos pela Turma do Cristo em sua opinião?
TC: Entre tantos, um teve uma história marcante, tanto na confecção e na soltura. O Tanque de Guerra marcou porque era época da Guerra das Malvinas (1982) e fizemos uma armação onde o tanque de guerra, pela boca do canhão soltava fogos e logo em baixo a palavra PAZ . O legal foi que paramos o balão nas guias para descarregar os fogos que estavam apontados para cima e as pessoas no campo se assustaram mas depois entenderam e aplaudiram muito.

GB: Como viram a chegada da Lei que proibiu os balões em 1998?
TC: Balão não desmata e nem atropela avião.

GB: Como vêem os balões de hoje em relação aos balões do passado?
TC: Salve a TECNOLOGIA !

GB: Participaram de Resgates?
TC: Não, nunca participamos, só assistimos de longe. Preferimos assim porque , na hora em que ele cai, causa certa cegueira em alguns e na maioria das vezes, até amigos se estranham.

GB: Participaram de muitos festivais, principalmente os da Amizade e Campo Grande. Em sua opinião, até onde estes eventos foram importantes para o desenvolvimento do balão?

TC: Festivais, começamos a partir de 1980, por intermédio do Geninho e da Beth da Folha do Baloeiro, jornal impresso que era muito popular na época. Nos meses de junho e julho eles freqüentavam as lojas Americanas aqui de Madureira onde eu trabalhava e decorava com balões de papel. A convite deles passamos a participar de todos os festivais e revoadas soltando balões ou apenas fotografando-os. Festival de balão de papel foi e é um importante evento cultural. Reúnem multidões no mesmo espaço sem confusão e grandes artes são vistas, trocas de informações são realizadas, encontros e reencontros são emocionantes. Além dos festivais da Amizade e TCG, participamos de festivais e revoadas da Bruxa de Niterói, Faísca CG, Balonáutico de Niterói.

GB: Vocês nunca soltaram um balão de grande porte. Qual a opinião de vocês sobre o Gigantismo?
TC: GIGANTISMO, será que é necessário?

GB: E sobre Boca de Ouro? Chegaram a participar de algum?
TC: Boca de Ouro só participamos ajudando na lanternagem e na torcida, mas na Boquinha de Ouro, chegamos a concorrer e até chegamos nas finais.

GB: Hoje é muito comum vermos a categoria Recorte nos regulamentos de campeonatos. Com certeza acompanham, mesmo que pela internet, os balões de recorte que competem. Vocês acreditam que os balões de recorte de hoje são mais ou menos criativos que os balões que faziam ou eles evoluíram a tal ponto que seria difícil criar algo para competir com eles?

TC: Com a ajuda a tecnologia para desenvolver e ampliar balões de recorte, certamente competiríamos e acredito, com grandes chances vencer. Mas, não é o caso da Turma do Cristo. No momento, o gostoso é fazer um pequeno desenho, seja, por exemplo, uma flor, fazer o projeto, ampliar, cortar, colar,calcular o bojo no “olhomêtro”, acertar nos detalhes e principalmente na bucha e ir pra galera . Fala sério , não é mais gostoso?

GB: Mensagem final:
TC: Gostaria de agradecer a GB pela oportunidade de contar um pouco da nossa história e mandar um grande abraço a todos que admiram nosso trabalho em mais de 30 anos fazendo arte em papel e cola.
Sidney e Conceição.

Confira o álbum de fotos dos balões da Turma do Cristo:

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