Um gigante e o Português | Gazeta do Balão

Fogueteiro Noturno. Por mais perigoso e de alto custo, há sempre 2 sentimentos ao fazer um balão com fogueteira: a adrenalina e a emoção. Por mais que os balões de armação tem sua nostalgia, seu glamour, qualquer pessoa, baloeira ou não se encanta com o show pirotécnico de um balão seja de noite ou de dia.

Como diz a lei da física, quanto maior, mais peso puxa e claro, mais dinheiro se gasta, afinal, fogos sempre foram caros. No mundo do balão, poucos conseguem levar aos céus com perfeição um gigante fogueteiro. assim como na Pesca, existe muita lenda, muita mentira e feitos catastróficos mesclados com histórias reais, emocionantes e inesquecíveis.

Uma delas, é do Modelado de 37m campeão da Boca de Ouro de São Paulo em 1999 da Balão Mágico e Buffalo Branco, uma parceria nascida num resgate anos antes, onde o Homero resgatou um balão da Buffalo Branco com toda a carga falhada e devolveu para a turma. Essa atitude rara e nobre gerou uma grande amizade entre as turmas e, devido a isso, escreveram juntas seu nome na história com feitos históricos, balões inesquecíveis, várias Bocas de Ouro e recordes até hoje vivos na galeria dos maiores balões soltos no mundo.

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A emocionante história desse balão será contada a seguir pelo Português, um ex integrante da Balão Mágico que nos enviou um email contando sua história:

Bem deixo aqui a todos os amantes da arte um grande abraço, que por todos estes anos tem feito nossa arte cada vez mais tecnológica,tentando assim com inovações deixar cada vez mais seguro nosso balão.
Participei na confecção, montagem das fogueteiras, por fim, todas as etapas desde o inicio até o fim na soltura deste que foi o balão da minha vida. Fiquei afastado da Balão Magico por alguns anos,após o falecimento de nosso membro o querido Lelé em 1994, pouco antes da soltura do nosso Truffi de 40m fogueteiro diurno em Itapevi.

Fiquei desgostoso do balão, o Lelé foi um irmão, daqueles que fazem parte da nossa família. Anos depois de ter parado, fui ate nosso glorioso Tatí na Aricanduva para comprar uns fogos que não recordo no momento para qual finalidade, e dentro da loja do japonês, encontrei o Zaroio, mais conhecido como Alex da Balão Mágico que ficou emocionado em me ver. Conversa vai, conversa vem, surgiu o convite para eu voltar para a equipe.

Voltei para casa já com o pensamento de que retornaria a fazer balão. Nós que nascemos com esse dom podemos nos afastar mas jamais abandonar, não é?

O tempo passou e quando me vi, já estava na sede metendo o dedo na cola e fazendo esse modelado de 37 metros que seria fogueteiro noturno. Para minha surpresa, a Balão Mágico havia se juntado a Búffalo Branco do grande Nelsão, e dia após dia, me encontrava mexendo no gigante juntamente com meus amigos: o famoso Dedinho, o Narigudo, o Magrão e alguns membros que não me lembro o nome.

Meses depois, o balão estava pronto, a carga também e foi decidido soltar o balão em Campo Limpo Paulista. Transportamos tudo para o lugar. Montamos as fogueteiras uma semana antes e, na sexta feira, começamos a transportar os fogos. Eu e o Lecinho da Tôa Tôa nos encarregamos de levar as bombas em nossos carros e o Lula levou o balão, a boca, a bucha e a mesa. O curioso que parte dos fogos preencheram o meu carro um Fiat Uno até a boca. Optei por ir pela rodovia Anhanguera enquanto o Lecinho foi pela Fernão Dias, fazendo um caminho mais longo porém mais tranquilo.

Perto de Campo Limpo Paulista, quem conhece as quebradas sabe que nesse trajeto pela Anhanguera sentido Campo Limpo, há um posto da Polícia Rodoviária. E lá estava eu com meu carro lotado de bombas numa madrugada de sexta para sábado e não havia uma alma viva na estrada. Quando estava chegando perto desse posto Policial, resolvi diminuir a velocidade do carro e esperar que outro carro, um Corsa branco me passasse. Quando chegávamos no posto, o guarda rodoviário entrou no meio da pista, parou o Corsa e sinalizou para eu continuasse. Pensa numa pessoa que não passava nem um alfinete? Pelo menos a minha ideia deu certo. Imagina se eu estivesse na frente daquele Corsa?

Emfim, cheguei até o local da soltura com todas as bombas, relatei o fato ocorrido como se fosse um herói. No dia seguinte começamos a montagem das gaiolas e no sábado a tarde já estavam todas montadas. Esperamos anoitecer, o estava tempo feio, estrelado porém um vento infernal. No dia seguinte já havia a preocupação com o tempo e até arriscamos levar o balão para o campo, mas não foi possível a sua soltura.

Optamos por soltar o bitelo a qualquer dia que fosse o mais perfeito. Afinal, com tudo montado, não podíamos ficar muito tempo esperando. Na terça fui para o campo, o vento estava pior e retornei para casa. Já na estrada, vi fogos estourando no céu na região do campo e fiquei muito chateado por ver pessoas, oportunistas que roubaram os fogos das gaiolas e ficaram soltando no campo. Cheguei em casa, fui dormir. Não conseguia dormir de jeito nenhum. Rolava na cama, levantava, voltava. Não conseguia dormir com tanta preocupação. Por volta das duas da manhã, meu telefone tocou e era o Magrão dizendo: “Portuga, corre pra cá que vamos liberar o Balão”.
Dei um pulo da cama e fui para o campo. Quando cheguei, já estavam enchendo o balão, mesmo com uma pequena brisa.

Bem Balão cheio e com brisa leve e fogueteiras descobertas, colocamos a bucha de 137 kg no balão. A brisa piorou, a tensão também. Mantemos o balão no maçarico por alguns minutos até a brisa passar. Fogo na bucha e a sensação de que não teria volta, agora o balão tinha que subir. Fui preparado para o pior: Levei um capacete aberto e coloquei uma jaqueta de couro nervosa.  E o balão foi subindo. 5 gaiolas no alto no total de 11 carregadas de caídas, cabeçudas, cometinhas, cortadinhos e a última de para-quedas.

Balão inflamado, em torno de 7 guias ali e eu guiando o balão que desalinhou com seis fogueteiras, começou a tombar e de aproximadamente 20 pessoas que estavam ajudando no começo, só sobraram 5. Isso mesmo: o balão tombava, lavava o chão com cometinhas e varas que caiam das gaiolas e quando voltava, ganhava pressão na troca de ar. Muita gritaria, desespero, tensão em todos que ali estávamos colocando as fogueteiras em baixo do balão.

Nossa sorte que, quem tinha a principal guia, sabia o que fazia com ela, o Homero que junto com o Alex, mantiveram o controle. Cheguei a ver  duas a três guias abandonadas, soltas devido ao medo que predominava. Imagina se esse balão abre no chão, tinha bomba viu?

Com toda aquela situação, tomei uma decisão e disse ao Nelsão da Buffalo Branco: “Se a gente não cortar agora as fogueteiras que ainda estão no chão você vai perder tudo cara”. Nesse momento, o Dedinho teimoso como uma vaca brava julgou minha decisão e falou não. “Não corta não o balão vai levar tudo, No meio do meu debate com o Dedinho, o Nelsão começou a gritar; “Vamos cortar!”

Fomos cortar as fogueteiras e apareceu outro problema: As gaiolas eram ligadas por cabos de arame recozido e só tínhamos estiletes, Isso mesmo, só tínhamos estiletes, nem um alicatinho por perto. E cortamos no estilete mesmo!

Teve uma hora que ele estabilizou, acendemos o estopim e  o balão saiu arrastando num vale em meio a uma mata fechada e começou a pegar altura. Vibração geral, lágrimas nos olhos, afinal, havíamos vencido! Nosso balão estava no alto, pegando altura, a fogueteira acendeu e deu o recado a muitos que nos abandonaram ali em nosso momento de maior tensão como covardes.

O balão deu um show, entrou pra história como um dos balões gigantes fogueteiros noturnos mais bonitos. Nos encheu de alegria ao mostra o colorido de suas fogueteiras a todos que ali estavam presentes. As aberturas foram inesquecíveis e pra nós, amantes do balão nos resta recordar e reviver uma história cheia de adrenalina e emoção que  fica numa eterna lembrança.
Muito Obrigado trinta e sete, você foi a alegria da minha vida!

Portuga – Balão Mágico

Veja o Vídeo:

Comentários:

  1. Johnny Só Amigos Suzano SP. disse:

    História emocionante hein, cortaram o arame na raça, parabéns as Turmas Balão Magico e Bufalo Branco, uma das maiores Turmas no mundo do balão…………….Parabéns…………….

  2. Albatroz disse:

    Era da Balao Magico e vivi este sufoco todo , dava vontade largar tudo e virar as costas , mas fomos fortes e continuamos nosso cabo de força com o balao , sim cortamos o arame com um facao , era so gritaria mas continuamos firme e forte , ele jogava para cima das arvores e quando voltava nos entravamos com mais gaiola para baixo dele , e assim foi ate que finalmente ele subiu lindo dando seu show .

    Magrao ex Balao Magico , mas acredito que ainda teremos baloes grande desta turma.

  3. Grupo 21 disse:

    Fui em todas as tentativas de soltura desse balão, inclusive no dia que ele subiu.
    Mas como estava ventando vim em bora como fez o português também
    No dia seguinte fiquei sabendo que tinha subido, e da aventura que foi a soltura
    Parabéns a todos os envolvidos nesse balão e a bela reportagem

  4. desenho disse:

    Eu trabalhava na época no tati….e fui todos os dias….inclusive na soltura….eu nunca vi um balão deitar quase todo nas arvores e quando voltava arrancava duas gaiolas de uma vez….um barulho o papel fazia estilo quando vc pisa em folha seca….os caras foram corajosos o balão era muito bem feito porque se não, tinha caído tudo….e o campo era pequeno…e com certeza iria machucar pessoas…!! Parabéns a todos tempos que não volta nunca mais !!!

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